Custo aquecido demais

Quanto vai custar adaptar o mundo ao clima que já mudou?

A adaptação climática já é uma questão econômica: o mundo precisa investir em infraestrutura resiliente antes que o custo dos desastres se torne ainda maior.

Por @redacao
Cidade contemporânea com infraestrutura resiliente diante de chuva intensa e clima extremo.
Imagem gerada com IA

A adaptação climática deixou de ser apenas uma agenda ambiental. Com perdas crescentes, infraestrutura exposta e um déficit bilionário de financiamento, investir em resiliência passou a ser uma questão econômica.

O clima mudou. A questão agora é quanto custará adaptar cidades, redes de energia, sistemas de água, transportes e outras infraestruturas a um ambiente de riscos mais elevados — e quanto custará não fazê-lo.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirmou que 2015 a 2025 foram os 11 anos mais quentes já registrados. Em 2025, a temperatura média global ficou cerca de 1,43 °C acima da média de 1850–1900, enquanto eventos como calor extremo, chuvas intensas e ciclones provocaram disrupções em diferentes regiões. [1]

Esse cenário não transforma todo desastre em consequência direta da mudança climática. As perdas também dependem de urbanização, concentração de patrimônio, ocupação do território, qualidade da infraestrutura e capacidade de prevenção. Mas o risco climático já precisa ser considerado nas decisões de planejamento e investimento.

A conta que aparece depois do desastre

Em 2025, 190 eventos de catástrofes naturais produziram cerca de US$ 220 bilhões em perdas econômicas no mundo, segundo o Swiss Re Institute. Desse total, US$ 107 bilhões estavam cobertos por seguros. Foi o sexto ano consecutivo em que as perdas seguradas por catástrofes naturais ultrapassaram US$ 100 bilhões. [2]

O número é expressivo, mas ainda não representa toda a conta.

O Global Assessment Report 2025, da Organização das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (UNDRR), estima que os custos globais dos desastres ultrapassam US$ 2,3 trilhões por ano quando são considerados efeitos indiretos e impactos sobre ecossistemas. As perdas econômicas diretas são estimadas em cerca de US$ 202 bilhões anuais. [3]

A diferença é fundamental.

Uma ponte interditada não representa apenas o custo de reconstruí-la. Ela pode interromper o transporte de mercadorias, aumentar trajetos, atrasar entregas, reduzir a produção de empresas e afetar trabalhadores e consumidores. Uma subestação danificada pode interromper atividades industriais e serviços. Uma inundação que atinge uma área logística pode produzir efeitos muito depois de a água baixar.

O desastre destrói ativos, mas também pode destruir tempo, produtividade e previsibilidade.

É por isso que a adaptação precisa ser tratada também como uma questão de infraestrutura econômica, e não somente como uma resposta ambiental.

Resiliência também é investimento

A lógica convencional costuma aparecer depois do evento: reparar, reconstruir e voltar ao funcionamento anterior.

A adaptação propõe outra abordagem: incorporar o risco futuro ao planejamento da infraestrutura antes que o desastre aconteça.

Isso pode significar ampliar sistemas de drenagem, reforçar pontes, adaptar estradas, proteger estações de tratamento de água, criar redundância em redes críticas ou incorporar parâmetros climáticos ao projeto de uma infraestrutura que funcionará durante décadas.

O investimento adicional nem sempre é pequeno, mas pode ser economicamente racional.

Estudo do Banco Mundial sobre infraestrutura resiliente em países em desenvolvimento estimou US$ 4 em benefícios para cada US$ 1 investido em resiliência, considerando os ganhos associados à redução de danos e interrupções ao longo da vida útil da infraestrutura. [4]

O resultado não significa que toda obra de adaptação tenha retorno de quatro vezes o capital aplicado. O benefício varia conforme o setor, a localização, o nível de risco e as características do projeto.

A conclusão mais importante é outra: há situações em que gastar mais antes do desastre pode custar menos do que reconstruir depois dele.

A lógica vale também para sistemas inteiros, e não apenas para ativos isolados. Uma estrada resiliente é mais útil quando as conexões que dependem dela também conseguem permanecer operacionais. O mesmo vale para redes de energia, água, comunicação e transporte.

Quanto mais interdependentes se tornam as economias, maior é o valor de uma infraestrutura capaz de continuar funcionando sob condições adversas.

O problema é que o dinheiro não acompanha a necessidade

Se a adaptação pode reduzir perdas futuras, surge uma segunda pergunta: quem vai pagar por ela?

A diferença entre a necessidade estimada e o financiamento disponível é enorme.

O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) estima que os países em desenvolvimento precisarão de US$ 310 bilhões por ano em financiamento para adaptação até 2035, considerando custos modelados. Quando a estimativa parte das necessidades expressas nas Contribuições Nacionalmente Determinadas e nos Planos Nacionais de Adaptação, o valor chega a US$ 365 bilhões anuais. [5]

Em 2023, porém, os fluxos internacionais de financiamento público para adaptação destinados aos países em desenvolvimento somaram apenas US$ 26 bilhões, abaixo dos US$ 28 bilhões registrados no ano anterior. [5]

O resultado é uma lacuna estimada entre US$ 284 bilhões e US$ 339 bilhões por ano. Segundo o PNUMA, as necessidades de financiamento são atualmente 12 a 14 vezes maiores que os fluxos públicos internacionais observados. [5]

Isso coloca um limite evidente sobre a capacidade dos governos de resolver o problema sozinhos.

A adaptação exigirá capital público, mas também bancos de desenvolvimento, investidores institucionais, seguradoras, concessões, parcerias público-privadas e mecanismos capazes de reduzir o risco de projetos resilientes.

O desafio é fazer com que a prevenção deixe de parecer apenas uma despesa adicional e passe a ser reconhecida também como proteção de ativos, continuidade operacional e redução de risco econômico.

O Brasil não está fora dessa conta

É nesse ponto que a discussão global encontra uma realidade brasileira.

O país já enfrenta impactos sobre disponibilidade de água, agricultura, geração hidrelétrica e infraestrutura urbana. Segundo o Banco Mundial, secas, inundações repentinas e inundações fluviais nas cidades brasileiras provocam perdas médias de aproximadamente R$ 13 bilhões por ano, equivalentes a cerca de 0,1% do PIB de 2022. O organismo também aponta impactos significativos sobre as infraestruturas de transporte e energia, com consequências para a competitividade econômica. [6]

A dimensão do problema aumenta quando se considera que a infraestrutura brasileira terá de ser ampliada e modernizada de qualquer maneira.

O país precisa investir em transporte, saneamento, energia, telecomunicações, abastecimento de água e infraestrutura urbana. A questão é se esses investimentos serão dimensionados apenas para as condições históricas ou se incorporarão os riscos que estarão presentes durante as próximas décadas de operação.

Essa diferença é decisiva.

Uma estrada construída hoje poderá permanecer em serviço por décadas. Uma ponte, uma subestação ou uma rede de abastecimento também. O investimento feito agora determina parte da exposição econômica do futuro.

O Brasil já começou a incorporar essa preocupação ao planejamento. O Plano Clima orienta a política climática brasileira até 2035 e inclui medidas de adaptação aos impactos da mudança do clima. [7] O BNDES, por sua vez, colocou entre suas diretrizes estratégicas para 2026–2030 a redução do hiato de investimentos em infraestrutura com promoção de resiliência e adaptação climática, abrangendo setores como energia, logística, mobilidade urbana, saneamento e telecomunicações. [8]

A questão, portanto, já não é se a adaptação entrará na agenda de infraestrutura. Ela já entrou.

O desafio é transformar planejamento em projetos e projetos em ativos capazes de continuar funcionando sob condições mais adversas.

A conta pode ser paga antes ou depois

A adaptação climática não elimina o risco. Também não impede todos os desastres.

Seu objetivo é reduzir a exposição, diminuir a vulnerabilidade e preservar a capacidade de uma sociedade continuar funcionando quando o evento extremo acontecer.

Essa diferença muda a forma de olhar para o investimento.

Uma cidade pode gastar para reconstruir uma avenida depois de uma inundação ou investir antecipadamente em drenagem e planejamento urbano. Uma empresa pode substituir equipamentos destruídos depois de uma enchente ou proteger sua operação antes dela. Uma rede elétrica pode ser reparada repetidamente ou receber investimentos em redundância e proteção.

Em todos esses casos, a escolha não é entre gastar ou não gastar.

É decidir onde o dinheiro será gasto.

O mundo já conhece parte dessa conta. As perdas econômicas dos desastres são grandes, os custos indiretos são ainda maiores e o financiamento disponível para adaptação permanece muito abaixo das necessidades estimadas. Ao mesmo tempo, estudos indicam que investimentos em infraestrutura resiliente podem gerar benefícios econômicos superiores ao capital aplicado. [3][4][5]

A adaptação, portanto, não deveria ser tratada apenas como uma despesa adicional imposta pela mudança climática.

Ela é, cada vez mais, uma decisão sobre quanto uma economia está disposta a investir hoje para preservar infraestrutura, produtividade e capital amanhã.

O clima já mudou. A próxima decisão é saber se a infraestrutura mudará antes ou depois da próxima grande conta.


Fontes e referências

[1] World Meteorological Organization (WMO). State of the Global Climate 2025. 23 mar. 2026.

[2] Swiss Re Institute. Global natural catastrophe losses in 2025. 2026.

[3] United Nations Office for Disaster Risk Reduction (UNDRR). Global Assessment Report 2025 — Resilience Pays: Financing and Investing for our Future. 2025.

[4] World Bank. Lifelines: The Resilient Infrastructure Opportunity.

[5] United Nations Environment Programme (UNEP). Adaptation Gap Report 2025: Running on Empty. 2025.

[6] World Bank Group. Brazil: Country Climate and Development Report.

[7] Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima. Plano Clima. Governo Federal do Brasil.

[8] Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Diretrizes Estratégicas 2026–2030.

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