Valor perdido

Economia circular: por que o Brasil ainda joga dinheiro fora

O Brasil avança na economia circular, mas ainda desperdiça materiais que poderiam gerar valor e novas oportunidades econômicas.

Por @redacao
Instalação industrial brasileira de recuperação de materiais e reinserção de resíduos na cadeia produtiva.
Imagem gerada com IA

Durante décadas, a lógica econômica foi relativamente simples: extrair recursos, transformar matérias-primas em produtos, consumi-los e descartar aquilo que deixasse de ter utilidade. Esse modelo linear ajudou a expandir a produção e o consumo, mas também criou uma ineficiência: materiais, energia, água, infraestrutura e trabalho incorporados aos produtos podem deixar de gerar valor antes que seu potencial econômico seja esgotado.

A economia circular parte de outra premissa. Em vez de considerar o descarte como o ponto final, procura manter produtos e materiais em circulação pelo maior tempo e valor possíveis, por meio de manutenção, reparo, reutilização, recondicionamento, remanufatura, reciclagem e outras formas de recuperação.

Não se trata apenas de produzir menos resíduos. Trata-se de preservar o valor dos recursos ao longo da cadeia produtiva.

Essa mudança já entrou na agenda econômica brasileira. Em junho de 2024, o governo federal instituiu a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC), com a finalidade de promover a transição do modelo de produção linear para uma economia circular e incentivar o uso eficiente dos recursos naturais ao longo das cadeias produtivas.[1] Em maio de 2025, foi aprovado o Plano Nacional de Economia Circular 2025–2034, com 18 macro-objetivos e 71 ações distribuídos em cinco eixos.[2]

O desafio agora é transformar essa arquitetura institucional em escala econômica.

O que significa, na prática, uma economia circular

A expressão pode parecer abstrata, mas sua lógica é relativamente simples.

No modelo linear: extrair → produzir → consumir → descartar.

Na economia circular: produzir → usar → manter → reparar → reutilizar → recondicionar → remanufaturar → reciclar → reintroduzir.

A diferença fundamental está no momento em que o valor é perdido.

Um equipamento que deixa de funcionar, por exemplo, não precisa necessariamente se transformar em sucata. Dependendo do produto, pode ser reparado, ter componentes substituídos, ser recondicionado ou desmontado para que suas peças sejam aproveitadas. A reciclagem é uma possibilidade posterior, quando as alternativas de maior retenção de valor deixam de ser viáveis.

Por isso, economia circular não pode ser reduzida à coleta seletiva.

A reciclagem é uma das ferramentas da circularidade, mas está longe de ser a única. O conceito também envolve produtos mais duráveis, reparáveis e reutilizáveis, recuperação de componentes, remanufatura e novas formas de aproveitamento de materiais.

O próprio governo federal define a economia circular como um sistema que mantém o fluxo circular de recursos por meio da adição, retenção ou recuperação de seus valores e estabelece como diretrizes a manutenção do valor dos materiais, o aumento de seu ciclo de vida e a redução da dependência de recursos naturais.[1]

É uma mudança de lógica: o objetivo não é apenas administrar melhor o que foi descartado, mas evitar que o valor econômico seja perdido tão cedo.

O Brasil já começou a construir essa estrutura

A criação da Estratégia Nacional de Economia Circular colocou a circularidade dentro de uma agenda que envolve política industrial, inovação, financiamento, tributação, infraestrutura e desenvolvimento de mercados.

A ENEC está organizada em cinco eixos: ambiente normativo e institucional; inovação, cultura, educação e competências; redução do uso de recursos e da geração de resíduos; instrumentos financeiros; e articulação entre diferentes níveis de governo e trabalhadores da economia circular.[1]

O Plano Nacional transformou esses princípios em uma agenda mais detalhada. Entre as ações previstas estão o estímulo ao design circular, programas voltados à redução de resíduos por meio de reparo, reciclagem, reprocessamento, recondicionamento, remanufatura e reutilização, além do reaproveitamento de componentes em diferentes setores industriais.[2]

O plano também prevê mecanismos financeiros, instrumentos tributários, linhas de crédito e critérios para apoiar projetos de economia circular.[3]

Não é, portanto, apenas uma política para melhorar a destinação do lixo.

É uma tentativa de modificar a maneira como recursos entram, permanecem e saem da economia.

A indústria já está fazendo — e há dinheiro envolvido

A transição também não começa do zero dentro das empresas.

Pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), realizada em 2026, mostra que 57% das empresas industriais adotam pelo menos uma prática de economia circular.[4]

Entre as práticas identificadas estão reciclagem de produtos, logística reversa, incorporação de recursos reciclados ou recuperados e oferta de manutenção ou reparo durante o uso dos produtos.[4]

O dado mais relevante para uma análise econômica é outro: 40% das empresas que já desenvolvem práticas de economia circular afirmam ter obtido retorno financeiro sobre o investimento realizado.[5]

Isso não significa que a circularidade seja automaticamente lucrativa. Na mesma pesquisa, 46% das empresas disseram ainda não saber relacionar o investimento realizado ao retorno obtido.[5]

Mas o resultado desmonta uma ideia comum: circularidade não é necessariamente apenas um custo adicional para atender a uma agenda ambiental.

Em determinadas operações, preservar materiais, prolongar a vida útil de produtos, recuperar componentes ou reduzir desperdícios pode gerar retorno econômico.

A questão é fazer essas iniciativas deixarem de ser casos isolados e ganharem escala.

O desperdício começa antes do aterro

Quando se fala em economia circular, é comum imaginar imediatamente o caminhão da coleta seletiva, a cooperativa de reciclagem ou a indústria que transforma resíduos em novos materiais.

Mas o desperdício econômico começa antes do aterro.

Em 2024, o Brasil gerou 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos (RSU), segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, da Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema).[6]

Desse total, 76,4 milhões de toneladas foram coletadas. Considerando a massa coletada, 59,7% receberam destinação ambientalmente adequada em aterros sanitários, enquanto 40,3% tiveram disposição inadequada.[6]

O número é principalmente um problema de gestão ambiental e sanitária, mas também revela uma questão econômica: parte dos materiais que poderia permanecer em circulação acaba sendo encaminhada para disposição final.

Em 2024, 7,1 milhões de toneladas de resíduos secos foram enviadas à reciclagem, o equivalente a 8,7% do RSU gerado.[6]

Esse número não representa toda a economia circular — e justamente por isso é importante não confundir os conceitos.

A circularidade começa antes da reciclagem e pode terminar depois dela. Um produto reparado ou reutilizado permanece mais próximo de seu valor original do que o material que precisa ser destruído e transformado novamente em matéria-prima.

Quanto mais alto o nível de retenção de valor, maior tende a ser o potencial econômico preservado.

O problema é fazer a conta fechar

Se existem materiais recuperáveis e empresas que já encontram retorno financeiro em práticas circulares, por que a transformação não avança mais rapidamente?

A resposta está menos na falta de uma única solução e mais na estrutura econômica necessária para que essas cadeias funcionem.

Na pesquisa da CNI, 25% das empresas apontaram a falta de demanda por produtos circulares e as altas taxas de juros como entraves relevantes à adoção da economia circular.[4] A sondagem também identifica dificuldades relacionadas a tecnologias economicamente viáveis, tributação, investimentos e qualificação profissional.[5]

Isso ajuda a explicar por que uma prática que funciona dentro de uma empresa pode não conseguir se transformar imediatamente em um mercado inteiro.

Uma tecnologia de recuperação pode existir, mas seu uso dependerá de investimento, escala, logística e demanda. Um material recuperado pode estar disponível, mas precisará encontrar compradores dispostos a utilizá-lo. Um produto pode ser tecnicamente reparável, mas o serviço de reparo precisa ser economicamente viável para o consumidor e para quem o oferece.

A circularidade, portanto, depende de uma cadeia inteira.

Não basta haver quem recicle. É preciso haver quem colete, transporte, processe, compre, utilize e consiga colocar novamente o produto ou material no mercado.

Infraestrutura será tão importante quanto tecnologia

Essa é uma das razões pelas quais a economia circular também é uma questão de infraestrutura.

Para que produtos e materiais retornem ao ciclo econômico, são necessárias redes de coleta, triagem, armazenamento, transporte e processamento. Dependendo do modelo, também são necessárias assistência técnica, recondicionamento, remanufatura e canais de comercialização.

O próprio Plano Nacional prevê ações relacionadas à infraestrutura e à criação de condições para ampliar atividades de reparo, reutilização, recondicionamento, remanufatura e reciclagem.[2]

Em um país de dimensões continentais como o Brasil, a localização dessas estruturas também importa.

Uma indústria pode estar preparada para utilizar determinado material recuperado, mas a distância entre os pontos de geração e processamento pode elevar o custo da operação. Em outros casos, pode faltar volume suficiente para alimentar uma planta de processamento de maneira contínua.

Por isso, circularidade também envolve geografia econômica.

É preciso identificar onde determinados fluxos de materiais existem, onde podem ser processados e onde existe demanda capaz de absorvê-los.

O consumidor ainda conhece pouco o conceito

Há outro gargalo: a economia circular ainda não faz parte do vocabulário econômico da maior parte da população.

Pesquisa divulgada em julho de 2026 mostra que 39% dos brasileiros nunca tinham ouvido falar em economia circular. Entre os 57% que já haviam ouvido falar no conceito, apenas 12% disseram conhecê-lo bem; outros 45% já tinham ouvido falar, mas não conheciam detalhes.[7]

O resultado ajuda a explicar por que a discussão pública frequentemente reduz a circularidade à reciclagem.

Isso não significa que consumidores sejam indiferentes ao problema. A mesma pesquisa apontou disposição relevante para mudanças de hábitos de consumo com o objetivo de gerar menos resíduos.[7]

Mas a escolha individual tem alcance limitado quando não existem produtos reparáveis disponíveis, sistemas de logística reversa acessíveis, mercados para produtos recondicionados ou infraestrutura adequada para recuperar materiais.

Uma economia circular não depende apenas de consumidores mais conscientes. Depende de mercados capazes de transformar essa demanda em atividade econômica.

Uma oportunidade industrial escondida no descarte

Existe uma dimensão estratégica nessa transição.

Quanto mais materiais conseguem permanecer dentro da economia, maior é o potencial de aproveitamento dos recursos que já foram extraídos e processados.

Isso pode abrir espaço para novas cadeias de negócios: recuperação de materiais, remanufatura, recondicionamento, manutenção, reparo, logística reversa, reciclagem, tratamento de resíduos orgânicos e desenvolvimento de produtos concebidos para circular por mais tempo.

O próprio Plano Nacional contempla diferentes setores, incluindo siderurgia, alimentos e bebidas, higiene e cosméticos, construção, têxteis e vestuário e eletroeletrônicos.[2]

Isso amplia o significado econômico da circularidade.

Não se trata apenas de encontrar uma destinação melhor para aquilo que sobra de uma produção. Trata-se de redesenhar produtos e processos para que o que hoje é considerado sobra possa, quando houver viabilidade técnica e econômica, permanecer como recurso.

Nesse sentido, a economia circular pode contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos já incorporados à atividade produtiva.

O próximo passo é transformar circularidade em vantagem competitiva

O Brasil já possui uma estratégia nacional, um plano de dez anos, uma estrutura de governança e uma indústria que, em parte, já experimenta modelos circulares.

Mas os próprios dados mostram a distância que ainda existe entre iniciativas empresariais e uma transformação sistêmica.

De um lado, 57% das empresas industriais pesquisadas já adotam alguma prática circular e 40% das que as adotam relatam retorno financeiro.[4][5]

De outro, a indústria ainda identifica falta de demanda, juros elevados, dificuldades tecnológicas e outros obstáculos à expansão dessas práticas.[5]

A questão central, portanto, não é mais saber se a economia circular é desejável.

É se o Brasil conseguirá torná-la economicamente viável e competitiva em escala suficiente.

Essa mudança não acontecerá simplesmente porque empresas e consumidores decidirão ser mais sustentáveis. Ela dependerá de produtos projetados para durar e ser reparados, mercados para materiais recuperados, infraestrutura de logística reversa, tecnologia, financiamento, regulação e demanda.

O salto acontecerá quando uma parcela muito maior dos materiais hoje descartados puder deixar de representar o fim de uma cadeia e passar a alimentar novas etapas produtivas.

Porque o problema do Brasil talvez não seja apenas produzir muito lixo.

É produzir valor, incorporá-lo aos produtos e permitir que parte desse valor seja perdida antes de seu potencial econômico ser totalmente aproveitado.

É aí que a economia circular deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a ser uma questão de produtividade, indústria e desenvolvimento.


Fontes e referências

[1] Presidência da República. Decreto nº 12.082, de 27 de junho de 2024. 27 jun. 2024.

[2] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Plano Nacional de Economia Circular 2025–2034. 2025.

[3] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Eixo 4 — Instrumentos financeiros, fiscais, tributários e creditícios. 2025.

[4] Confederação Nacional da Indústria (CNI). Sondagem Especial nº 102 — Economia Circular 2026: barreiras, oportunidades e práticas na indústria. 2026.

[5] Confederação Nacional da Indústria (CNI). Sondagem Especial nº 102 — Economia Circular 2026: barreiras, oportunidades e práticas na indústria. 2026.

[6] Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025. 2025.

[7] Agência Brasil. Quatro em cada dez brasileiros nunca ouviram falar em economia circular. 5 jul. 2026.

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