Conhecida há mais de dois mil anos, a asma pode ser controlada com medicamentos cada vez mais precisos. Alguns pacientes chegam à remissão. O próximo desafio é descobrir se a medicina consegue modificar a própria trajetória da doença — e, um dia, eliminá-la de forma definitiva.
A medicina já sabe dilatar os brônquios, reduzir a inflamação, bloquear moléculas específicas do sistema imunológico e diminuir a frequência de crises graves. Também consegue levar parte dos pacientes com asma grave a um estado de remissão clínica.
Mas uma pergunta permanece: por que ainda não existe uma cura para a asma?
A resposta começa por uma constatação menos simples do que parece. A asma não é uma doença homogênea. Ela reúne diferentes fenótipos e mecanismos biológicos, influenciados por genética, desenvolvimento pulmonar, sistema imunológico e ambiente. O Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas (PCDT) brasileiro atualizado em 2026 estabelece as diretrizes nacionais para diagnóstico, tratamento e acompanhamento da doença. [2]
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 363 milhões de pessoas tinham asma em 2023, ano em que a doença esteve associada a aproximadamente 442 mil mortes. A entidade afirma que medicamentos inalatórios conseguem controlar os sintomas e permitir que pessoas com asma levem uma vida normal e ativa, mas a doença continua sem cura. [1]
No Brasil, diferentes fontes apresentam estimativas de prevalência que variam conforme faixa etária, método e população estudada. Por isso, em vez de transformar a conhecida estimativa de “20 milhões de brasileiros” em um número absoluto atual, é mais correto tratá-la como uma estimativa historicamente utilizada pelo Ministério da Saúde.
Essa cautela estatística importa. Afinal, a pergunta desta reportagem não é apenas quantas pessoas têm asma, mas por que uma doença tão conhecida e tão estudada ainda não pode ser definitivamente eliminada.
A doença que a medicina ainda não consegue curar
A palavra “asma” tem origem grega e está relacionada à ideia de respiração ofegante. Descrições de dificuldades respiratórias aparecem em textos médicos de mais de dois mil anos.
Hoje, sabe-se que a asma é uma doença pulmonar crônica caracterizada por inflamação e estreitamento das vias aéreas. Seus sintomas podem incluir tosse, chiado, falta de ar e aperto no peito, variando ao longo do tempo e em intensidade. Infecções, alérgenos, fumaça, poluição e outros estímulos podem desencadear ou agravar os sintomas. [1]
O conhecimento sobre a doença mudou radicalmente. A cura, entretanto, continua ausente.
O problema começa antes da falta de ar
A explicação mais conhecida da asma é a de que os brônquios se contraem e dificultam a passagem do ar. Isso acontece, mas não conta toda a história.
Em determinados fenótipos, o processo pode envolver inicialmente o epitélio, revestimento das vias respiratórias. Quando esse tecido sofre determinados tipos de agressão, pode liberar moléculas conhecidas como alarminas, entre elas TSLP, IL-33 e IL-25.
Esses sinais ajudam a ativar uma complexa resposta imunológica. Entram em cena células como eosinófilos, mastócitos e linfócitos, além de moléculas como IL-4, IL-5 e IL-13. O resultado pode envolver: inflamação + hiperresponsividade + contração muscular + produção excessiva de muco. É esse conjunto que pode transformar uma exposição aparentemente banal em uma crise respiratória.
Gatilho não é causa
A asma possui uma lista extensa de fatores capazes de desencadear ou agravar sintomas:
- ácaros;
- fungos;
- pólen;
- fumaça de cigarro;
- poluição;
- infecções respiratórias;
- frio;
- exercício;
- exposições ocupacionais;
- determinados medicamentos.
Mas existe uma distinção fundamental: um gatilho não necessariamente é a causa da doença.
Uma infecção viral pode desencadear uma crise em alguém que já tem asma. O pólen pode provocar sintomas em uma pessoa sensibilizada. A fumaça pode agravar a doença.
Eliminar o gatilho pode ajudar a controlar o paciente. Não significa, necessariamente, eliminar a asma. [1]
A história pode começar antes da primeira crise
A pesquisa atual aponta para períodos importantes ainda na gestação e na primeira infância.
Prematuridade, baixo peso ao nascer, exposição à fumaça, poluição, infecções e outros fatores podem interferir no desenvolvimento pulmonar e na trajetória da saúde respiratória.
A genética também participa, mas não existe um único “gene da asma”.
Há múltiplas variantes associadas à suscetibilidade, enquanto fatores ambientais podem influenciar a regulação da expressão dos genes por mecanismos estudados pela epigenética.
A equação, portanto, é muito mais complexa: predisposição genética + desenvolvimento pulmonar + ambiente + sistema imunológico.
Essa complexidade ajuda a explicar por que não existe um único tratamento capaz de eliminar a doença em todos os pacientes.
A medicina deixou de tratar apenas o sintoma
Os broncodilatadores conseguem relaxar a musculatura das vias aéreas e aliviar a obstrução. Já os corticosteroides inalados atuam sobre a inflamação e continuam sendo uma das bases do tratamento.
A GINA 2026 mantém medicamentos contendo corticosteroides inalados como componente essencial para reduzir exacerbações e os riscos associados à asma. [3]
Nas formas graves, a medicina passou a utilizar os chamados medicamentos biológicos. Eles não são simplesmente “bombinhas mais fortes”. Cada um interfere em uma via biológica específica.
Entre os alvos estão:
- IgE, com omalizumabe;
- IL-5, com mepolizumabe e reslizumabe;
- receptor de IL-5, com benralizumabe;
- IL-4/IL-13, com dupilumabe;
- TSLP, com tezepelumabe.
No SUS, entretanto, é preciso distinguir medicamentos aprovados no país daqueles efetivamente incorporados às diretrizes públicas. O PCDT de 2026 estabelece critérios específicos para as terapias biológicas contempladas pelo sistema. [2]
A lógica passou a ser:
identificar o mecanismo predominante naquele paciente e tentar bloqueá-lo.
É a lógica da medicina de precisão.
O tratamento funciona, mas não é isento de riscos
Nenhum medicamento é simplesmente “bom” ou “ruim”. Seu benefício depende da indicação, dose, duração e perfil do paciente.
Corticosteroides inalados
São fundamentais para o controle da inflamação e para reduzir exacerbações.
Entre os efeitos adversos possíveis estão candidíase oral e rouquidão, especialmente quando a técnica de inalação é inadequada.
Em doses elevadas e uso prolongado, podem ocorrer efeitos sistêmicos.
Corticosteroides sistêmicos
Podem ser decisivos durante exacerbações graves, mas o uso prolongado está associado a riscos muito maiores, incluindo alterações metabólicas e ósseas.
Por isso, uma das metas da medicina moderna é reduzir a dependência de corticosteroides sistêmicos. [2][3]
Biológicos
Podem produzir reduções importantes nas exacerbações e melhorar o controle em pacientes selecionados.
Mas também possuem riscos, principalmente reações relacionadas à administração e efeitos adversos específicos de cada molécula.
A conclusão é simples:
o objetivo do tratamento não é usar o medicamento mais potente disponível, mas encontrar a terapia adequada para o mecanismo e a gravidade da doença.
O próprio PCDT brasileiro estabelece critérios de eficácia, segurança, efetividade e custo-efetividade para as tecnologias recomendadas ao SUS. [2]
Quando controlar já não é suficiente
Existe uma diferença importante entre interromper uma crise e modificar a doença.
A inflamação repetida pode estar associada a alterações estruturais das vias aéreas, conhecidas como remodelamento.
Podem ocorrer mudanças na espessura das paredes, musculatura lisa, tecido conjuntivo e produção de muco. Isso não acontece necessariamente da mesma maneira em todos os pacientes, mas representa uma das razões pelas quais a asma grave pode se tornar biologicamente mais complexa.
A ciência ainda investiga quanto dessas alterações pode ser revertido e em que momento da trajetória da doença isso seria possível. Por isso: controlar uma crise e modificar a doença são objetivos diferentes.
A asma continua pesando sobre o SUS
O PCDT de 2026 mostra uma redução nas internações por asma no SUS: de 134.222 em 2013 para 87.707 em 2023. O tempo médio de permanência hospitalar ficou em torno de três dias na série analisada. [4]
A mortalidade média registrada entre 2014 e 2021 foi de 1,16 óbito por 100 mil habitantes ao ano, segundo o documento da Conitec. [4]
Esses números ajudam a responder outra pergunta levantada nesta investigação:
Quanto tempo vive uma pessoa com asma?
Não existe uma expectativa de vida única e confiável que possa ser atribuída a todo asmático.
A gravidade da doença, o controle obtido, o acesso ao tratamento, as comorbidades e outros fatores modificam substancialmente o risco.
Portanto, seria cientificamente inadequado afirmar que “um asmático vive X anos menos”.
O que os dados permitem afirmar é que asma mal controlada e formas graves estão associadas a maior risco de exacerbações, hospitalizações e morte, enquanto o tratamento adequado pode controlar os sintomas e permitir uma vida normal e ativa. [1][4]
Quanto custa a asma?
A conta da doença vai muito além do preço de um inalador. Há: medicamentos + consultas + exames + emergências + internações + UTI + afastamentos + perda de produtividade.
Uma análise utilizada pela Conitec identificou 96.626 AIHs relacionadas aos códigos J45 e J46 em 2023, considerando diagnósticos primários ou secundários. Essas internações totalizaram R$ 74,4 milhões, com custo médio de R$ 801,34 por internação. O tempo médio foi de 3,59 dias; 6.364 pacientes necessitaram de terapia intensiva e houve 798 óbitos nesse conjunto de internações. [5]
O número precisa ser interpretado corretamente: R$ 74,4 milhões não representam o custo total da asma para o Brasil. É o valor hospitalar daquele universo específico de AIHs.
A mesma análise estimou o custo ambulatorial médio anual de um paciente com asma no SUS em R$ 4.347,96, em valores ajustados pela inflação para fevereiro de 2024. [5]
Isso ajuda a explicar por que o preço de um medicamento isoladamente não é suficiente para avaliar seu impacto econômico.
Um tratamento mais caro pode ser justificável se reduzir exacerbações, internações e uso de corticosteroides sistêmicos.
A pergunta econômica correta é:
quanto custa tratar o paciente adequadamente em comparação com o custo de manter a doença descontrolada?
O Brasil já pesquisa a asma grave em condições reais
O Registro Brasileiro de Asma Grave (REBRAG) reuniu 417 pacientes em 23 centros brasileiros para avaliar características clínicas, função pulmonar, biomarcadores, tratamentos, acesso a terapias e remissão clínica. [6]
Entre os 162 adultos:
- 71% tinham histórico de hospitalização;
- 31% haviam apresentado mais de duas exacerbações graves nos 12 meses anteriores;
- 6% tinham histórico de parada cardiorrespiratória. [6]
O estudo também revelou uma informação particularmente importante para nossa investigação.
Entre os 66 adultos tratados com medicamentos biológicos que puderam ser avaliados para remissão, 13 — 20% — alcançaram remissão clínica segundo os critérios adotados pelo estudo. [6]
Isso não significa que 20% de todos os asmáticos brasileiros estejam curados. Significa algo muito mais específico:
em uma amostra brasileira de pacientes com asma grave, 20% dos adultos avaliáveis que usavam biológicos alcançaram os critérios de remissão clínica definidos pelo estudo.
E existe outra ressalva: o REBRAG recebeu apoio de empresas farmacêuticas. A informação não invalida os resultados, mas deve acompanhar sua interpretação. [6]
Remissão não é cura
Aqui está talvez a mudança mais importante da pesquisa contemporânea.
Durante décadas, o objetivo principal era: controlar sintomas e evitar crises.
Agora, pesquisadores discutem um objetivo mais ambicioso: remissão.
Um consenso internacional publicado em 2026 propôs definições para remissão e atividade clínica mínima na asma grave, considerando exacerbações, uso de corticosteroides, função pulmonar e qualidade de vida. Os próprios autores afirmam que essas definições ainda precisam ser validadas em condições de mundo real. [7]
A distinção é fundamental. Um paciente pode apresentar:
- ausência de sintomas;
- nenhuma exacerbação;
- boa função pulmonar;
- boa qualidade de vida;
e ainda precisar de tratamento para manter esse estado.
Portanto: remissão sob tratamento não equivale a cura.
A ciência agora tenta modificar a doença
A mudança de objetivo é tão significativa que pesquisadores passaram a discutir formalmente o conceito de modificação da doença.
O consenso MODIASTHMA, publicado em 2024, ouviu 192 especialistas em asma de diferentes áreas para estabelecer aspectos clínicos, funcionais e fisiopatológicos que deveriam ser considerados na tentativa de demonstrar modificação da trajetória da doença. [8]
A pergunta deixa de ser apenas:
“O paciente está melhor?”
E passa a ser:
“A doença mudou?”
Isso poderia significar:
- menos exacerbações;
- menor necessidade de corticosteroides;
- preservação ou melhora da função pulmonar;
- menor atividade inflamatória;
- menor progressão;
- menor dependência de tratamento;
- eventualmente, remissão sustentada.
Ainda não existe evidência de que alguma dessas estratégias represente uma cura universal. Mas a pergunta científica já mudou.
Talvez seja necessário intervir antes
Se a asma resulta da interação entre predisposição biológica, desenvolvimento pulmonar, sistema imunológico e ambiente, talvez o momento da intervenção seja tão importante quanto o medicamento utilizado.
Uma possibilidade estudada pela ciência é intervir antes que a doença se estabeleça plenamente.
Outra é modificar sua trajetória nos estágios iniciais.
Uma terceira é alcançar remissão em pacientes com doença já estabelecida e descobrir se ela pode permanecer depois da redução do tratamento.
São estratégias diferentes. Todas apontam para a mesma mudança: a medicina quer deixar de apenas controlar a asma e descobrir se consegue alterar seu curso.
O que ainda falta descobrir?
A ciência já conhece várias peças do quebra-cabeça.
Sabe que:
- existem diferentes fenótipos;
- determinadas vias imunológicas podem ser bloqueadas;
- alguns pacientes respondem muito bem aos biológicos;
- alguns alcançam remissão clínica;
- fatores ambientais podem desencadear ou agravar a doença;
- alterações estruturais podem ocorrer;
- a função pulmonar pode ser preservada com tratamento adequado.
O que ainda não sabemos é como reunir essas descobertas para produzir uma remissão definitiva e ampla, sem dependência permanente de tratamento.
E há uma dificuldade adicional: não existe necessariamente um único mecanismo para ser desligado.
A asma pode envolver diferentes combinações de inflamação, hiperresponsividade, alterações estruturais e fatores ambientais.
Por isso, talvez a ciência não esteja procurando uma única cura. Pode estar procurando diferentes formas de interromper diferentes trajetórias da doença.
Controle, remissão, modificação e cura não são a mesma coisa
| Conceito | Significado |
|---|---|
| Controle | Sintomas e riscos são reduzidos pelo tratamento |
| Remissão | A atividade clínica da doença permanece ausente ou mínima por determinado período |
| Remissão sem tratamento | O paciente permanece controlado após redução ou retirada da terapia |
| Modificação da doença | Uma intervenção altera sua trajetória, e não apenas seus sintomas |
| Cura | Eliminação sustentada da doença sem necessidade permanente de tratamento |
A diferença entre esses conceitos é fundamental para entender o estágio atual da pesquisa.
A medicina já consegue alcançar controle em grande parte dos pacientes e remissão clínica em uma parcela dos casos graves.
Ainda não demonstrou uma estratégia capaz de produzir cura universal.
A resposta em 2026
A asma continua sem cura comprovada. Isso não significa que a medicina tenha parado.
A diferença entre o tratamento atual e o disponível décadas atrás é enorme. Hoje é possível reduzir exacerbações, preservar a função pulmonar e bloquear mecanismos imunológicos específicos com uma precisão que antes não existia. O PCDT brasileiro de 2026 também formaliza critérios nacionais para diagnóstico, tratamento e acompanhamento dentro do SUS. [2][3]
Mas a fronteira mudou. A pergunta já não é apenas: “Como fazer o paciente viver melhor com a asma?”
É também: “Podemos alterar a própria trajetória da doença?”
Essa pergunta ainda não tem resposta definitiva. E talvez seja justamente aí que esteja a parte mais importante dessa história.
Controlar a asma é realidade.
Alcançar remissão em alguns pacientes também.
Modificar definitivamente a doença ainda é uma promessa científica.
Curá-la continua sendo uma pergunta em aberto.
Fontes e referências
[1] Organização Mundial da Saúde (OMS). Asthma. 2026.
[2] Ministério da Saúde / Conitec. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas da Asma — 2026. 2026.
[3] Global Initiative for Asthma (GINA). Global Strategy for Asthma Management and Prevention 2026. 2026.
[4] Conitec. Relatório de Recomendação nº 1.078 — PCDT da Asma. 2026.
[5] Conitec. Dossiê técnico — Asma alérgica grave. 2024.
[6] Brazilian Severe Asthma Registry (REBRAG). Brazilian Severe Asthma Registry. 2025.
[7] Couillard et al.. Defining minimal clinical disease activity and remission in severe asthma. 2026.
[8] MODIASTHMA Consensus. Disease modification in asthma. 2024.