Energia e riqueza

O país que tem energia, mas ainda não consegue transformá-la em riqueza

A energia renovável coloca o Brasil em posição privilegiada, mas essa vantagem ainda precisa se converter em competitividade industrial e produtividade.

Por @redacao
Linhas de transmissão conectam fontes renováveis a um complexo industrial em paisagem brasileira
Imagem gerada com IA

O Brasil construiu uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, mas transformar essa vantagem em indústria competitiva exige mais do que gerar eletricidade: é preciso transmiti-la, torná-la competitiva, criar demanda e convertê-la em produtividade.

O Brasil dispõe de uma vantagem energética difícil de ignorar. Em 2025, 86,8% da matriz elétrica foi composta por fontes renováveis. A geração de eletricidade em centrais de serviço público e autoprodutores chegou a 775,9 TWh, enquanto a oferta interna de eletricidade alcançou 783,3 TWh após a inclusão das importações líquidas. Eólica e solar fotovoltaica, juntas, responderam por 26,4% da geração elétrica do país. [1]

A dimensão desses números ajuda a explicar a posição particular do Brasil na transição energética. A matriz elétrica combina uma base hidrelétrica ainda dominante com uma expansão acelerada de eólica e solar, além da participação de biomassa.

Mas essa vantagem física não se transforma automaticamente em vantagem econômica.

Ter uma matriz elétrica predominantemente renovável não significa, por si só, oferecer eletricidade barata à indústria. E produzir muita energia não significa necessariamente conseguir utilizá-la onde, quando e da forma que a economia precisa.

É nesse intervalo entre geração e produtividade que está uma parte importante do desafio brasileiro.

A energia que chega à economia custa mais do que sua geração

O primeiro ponto a separar é o custo de geração do preço da eletricidade para o consumidor.

A tarifa não corresponde simplesmente ao custo da usina que produziu a energia. Segundo a ANEEL, sua composição considera a energia gerada, o transporte por transmissão e distribuição e os encargos setoriais. A conta final também pode incluir tributos como ICMS, PIS/Cofins e a contribuição para iluminação pública. [2]

Isso ajuda a explicar por que uma matriz elétrica com recursos renováveis competitivos não determina, sozinha, o preço final pago por uma empresa.

A própria Agência Internacional de Energia chama atenção para esse problema ao avaliar o Brasil. Embora reconheça a vantagem proporcionada por um sistema elétrico de baixa emissão e fortemente baseado em renováveis, a IEA afirma que os preços de eletricidade precisam ser contidos para apoiar a eletrificação, a acessibilidade e a competitividade industrial. A organização também recomenda reavaliar a distribuição de custos e subsídios nas tarifas de varejo. [3]

O ponto não é afirmar que toda eletricidade brasileira seja cara ou que a geração renovável não ofereça vantagem econômica. A questão é mais específica: a vantagem existente na origem da eletricidade não chega integralmente ao consumidor na forma de uma vantagem equivalente de custo.

Entre a usina e a indústria existe uma estrutura econômica e regulatória inteira.

E ela também faz parte da competitividade.

O sistema precisa levar a energia até onde ela pode gerar valor

A expansão das fontes renováveis acrescentou outra dimensão ao problema.

Eólica e solar cresceram rapidamente no Brasil. Em 2025, a geração solar chegou a 88,1 TWh, alta de 24,7%, enquanto a geração eólica alcançou 116,5 TWh, crescimento de 8,2%. A capacidade instalada dessas duas fontes também avançou de maneira expressiva. [1]

O desafio é que a localização da geração nem sempre coincide com a localização da demanda.

Isso torna a transmissão uma parte fundamental da transformação da vantagem energética em vantagem econômica.

O planejamento oficial já incorpora essa necessidade. No cenário de referência do Plano Decenal de Expansão de Energia 2035, o Ministério de Minas e Energia e a Empresa de Pesquisa Energética projetam cerca de R$ 120 bilhões em investimentos no sistema de transmissão até 2035. O estudo considera justamente um setor em transformação, marcado pelo crescimento das fontes renováveis e pela entrada de grandes cargas. [4]

O número não representa apenas uma previsão de investimento em infraestrutura elétrica. Ele mostra que a expansão da capacidade de geração precisa ser acompanhada pela expansão da rede capaz de transportar essa energia.

Construir uma usina cria capacidade de geração. Construir a rede permite que essa capacidade seja convertida em energia efetivamente disponível para outros consumidores.

Essa diferença se torna cada vez mais relevante à medida que a matriz se torna mais distribuída e dependente de fontes cuja produção varia ao longo do dia.

Quando a energia existe, mas não pode ser integralmente aproveitada

O fenômeno conhecido como curtailment torna essa questão ainda mais evidente.

O termo designa a redução ou limitação da geração quando determinadas condições do sistema impedem que toda a energia potencialmente disponível seja produzida. O ONS distingue, entre outras situações, restrições associadas à confiabilidade elétrica e restrições por razões energéticas, quando há sobreoferta em determinados momentos. [5]

O fenômeno não significa que o Brasil tenha energia excedente de maneira permanente.

Significa que a oferta e a demanda nem sempre coincidem no tempo e no espaço.

Isso é particularmente importante para uma matriz que incorpora volumes crescentes de geração solar e eólica.

Segundo o ONS, em 2025 a maior parcela do curtailment de usinas eólicas e fotovoltaicas no SIN já estava associada a restrições por razões energéticas. O diagnóstico relaciona esse movimento à sobreoferta em determinados períodos do dia e ao avanço da micro e minigeração distribuída. [5]

As projeções para os próximos anos ajudam a dimensionar o desafio.

No horizonte 2026–2029 analisado pelo ONS, os cortes projetados podem superar 40 GW e chegar à ordem de 50 GW em determinados períodos e cenários críticos, principalmente entre 9h e 16h. Esses números representam montantes de potência de geração que precisariam ser restringidos em determinados momentos, e não uma quantidade de energia perdida ao longo de um ano. [5]

Essa distinção é importante.

Não se trata de dizer que dezenas de gigawatts de energia serão desperdiçados permanentemente. Trata-se de reconhecer que, em determinadas horas, a combinação entre geração renovável variável e carga disponível pode produzir uma situação em que parte da capacidade de geração precisa ser reduzida para preservar o equilíbrio e a segurança operacional do sistema.

É um problema de coordenação.

O paradoxo da expansão renovável

A situação cria uma característica nova para o planejamento energético brasileiro.

O país continua precisando de investimentos em geração e transmissão, mas também precisa encontrar formas de aumentar a capacidade de absorção da energia produzida.

O próprio ONS identifica entre as alternativas a expansão de recursos de flexibilidade, armazenamento, resposta da demanda e integração de novos consumidores. [5]

A questão deixa de ser apenas quanto o país consegue gerar.

Passa a ser também quanto da geração potencial consegue ser transformada em consumo útil.

Esse ponto é particularmente importante porque novas usinas não resolvem automaticamente uma restrição que ocorre justamente quando a oferta já supera a demanda em determinado intervalo.

Em determinadas circunstâncias, adicionar geração ao sistema pode até aumentar a necessidade de restrição se a carga, a transmissão e os recursos de flexibilidade não acompanharem a expansão.

É uma mudança importante na lógica de planejamento.

Mais capacidade instalada não significa necessariamente mais energia útil para a economia.

A indústria já é o maior consumidor de eletricidade

A relação com a atividade industrial aparece nos próprios dados de consumo.

Em 2025, o consumo final de eletricidade no Brasil cresceu 2,7%. O setor industrial foi responsável pelo maior aumento absoluto entre os segmentos: 7,5 TWh, ou 3,2%. [1]

Em outra base estatística da EPE, voltada especificamente ao mercado de energia elétrica, o consumo de eletricidade da indústria chegou a 199,3 TWh em 2025, crescimento de 0,7% sobre 2024. O aumento alcançou 22 dos 37 segmentos industriais acompanhados pela empresa. [6]

Os números mostram que a indústria já ocupa uma posição central na demanda elétrica brasileira.

Mas também revelam por que a discussão energética não pode ser separada da produtividade.

Uma empresa não ganha competitividade simplesmente porque tem acesso à eletricidade. Ela ganha competitividade quando consegue transformar essa energia em mais produção, menor custo, maior eficiência ou produtos de maior valor agregado.

A energia é um insumo.

A produtividade é o resultado econômico da forma como esse insumo é utilizado.

O ganho não está apenas em pagar menos pela energia

Essa distinção é particularmente importante para a indústria brasileira.

Uma redução do preço da eletricidade pode diminuir custos, mas o efeito econômico pode ser ainda maior quando a empresa consegue combinar energia competitiva com equipamentos eficientes, automação, digitalização e melhoria de processos.

Há evidência concreta dessa relação em programas de eficiência industrial.

O programa Brasil Mais Produtivo, coordenado pelo MDIC, tem entre seus objetivos justamente o aumento da produtividade, da eficiência energética e da competitividade das empresas. Em balanço divulgado pelo ministério em 2025, as empresas atendidas apresentaram melhoria de 28,4% na produtividade e economia de 19,6% no consumo de energia. [7]

Os resultados não podem ser generalizados para toda a indústria brasileira. Eles dizem respeito às empresas atendidas pelo programa e à metodologia utilizada em suas ações.

Mas são suficientes para demonstrar uma relação relevante: eficiência energética pode ser também uma variável de produtividade.

Isso muda a pergunta.

Em vez de perguntar apenas quanto custa a energia, é preciso perguntar quanto valor econômico uma empresa consegue produzir com cada unidade de energia consumida.

A oportunidade está em transformar energia em atividade econômica

É nesse ponto que a característica da matriz brasileira ganha uma dimensão estratégica.

A IEA considera que o Brasil possui uma oportunidade particular de utilizar seu sistema elétrico renovável, sua experiência em bioenergia e seus recursos naturais para desenvolver novas atividades de baixo carbono. A organização cita o potencial de criação de novas indústrias, empregos e cadeias de valor, mas ressalta que isso dependerá de mobilização de financiamento, redução de preços, aumento de eficiência e melhor aproveitamento dos recursos. [3]

Isso coloca a energia em uma posição diferente.

Ela deixa de ser apenas uma infraestrutura que precisa acompanhar o crescimento econômico e passa a ser também um fator potencial de localização e expansão de novas atividades produtivas.

A lógica pode alcançar diferentes setores: indústria eletrointensiva, processamento mineral, produção de materiais de menor intensidade de carbono, hidrogênio de baixo carbono, data centers e outras atividades cuja estrutura de custos seja particularmente sensível à disponibilidade de eletricidade.

Mas a existência de energia renovável não garante que esses investimentos acontecerão.

Eles dependem de infraestrutura, capital, regulação, logística, mão de obra, tecnologia e acesso competitivo à energia.

A matriz elétrica é uma condição favorável.

Não é uma política industrial completa.

Energia limpa só se transforma em vantagem quando a economia consegue utilizá-la

Essa talvez seja a distinção mais importante para o debate brasileiro.

Uma matriz elétrica renovável reduz a intensidade de carbono da eletricidade produzida. Isso pode se tornar uma vantagem para empresas que precisam reduzir suas emissões e para setores que competem em mercados cada vez mais sensíveis à pegada de carbono.

Mas a vantagem só ganha dimensão econômica quando encontra uma estrutura produtiva capaz de utilizá-la.

Uma rede insuficiente limita o aproveitamento da geração.

Uma tarifa pouco competitiva reduz a vantagem de custo.

A ausência de demanda adequada aumenta a necessidade de restrições em determinados períodos.

Baixa eficiência reduz o valor produzido por unidade de energia.

E falta de investimento em atividades de maior valor agregado limita a capacidade de transformar a vantagem energética em renda, empregos e produtividade.

O Brasil, portanto, não enfrenta uma única questão energética.

Enfrenta uma questão de integração entre energia, infraestrutura e economia.

O próximo passo é fazer a energia trabalhar para a produtividade

O país já possui uma base que seria difícil construir do zero.

A matriz elétrica é predominantemente renovável. A geração eólica e solar cresce rapidamente. O sistema interligado permite transferir eletricidade entre diferentes regiões. A capacidade de geração continua se expandindo. E existe um mercado interno suficientemente grande para sustentar novas cargas.

O que falta é fazer essas peças avançarem de forma coordenada.

Isso significa expandir a transmissão na velocidade necessária.

Significa desenvolver armazenamento e mecanismos de flexibilidade.

Significa aprimorar a formação de preços e a estrutura tarifária.

Significa criar condições para que novas cargas produtivas sejam instaladas onde possam contribuir para o equilíbrio do sistema.

Significa elevar a eficiência energética das empresas.

E significa integrar a política energética às decisões sobre indústria, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico.

A questão não é produzir energia a qualquer custo.

Também não é simplesmente produzir cada vez mais.

É produzir, transportar e utilizar energia de maneira que ela aumente a capacidade produtiva da economia.

O Brasil tem a energia. A próxima vantagem precisa ser econômica

A transição energética brasileira costuma ser apresentada como uma história de sucesso na expansão das fontes renováveis.

Os dados justificam essa leitura.

Mas essa é apenas a primeira parte da história.

A segunda começa quando a energia deixa a usina e entra na economia.

É nesse momento que entram os custos de transmissão e distribuição, os encargos, a estrutura tarifária, os investimentos em rede, a capacidade de absorção do sistema, a eficiência das empresas e a existência de atividades capazes de transformar eletricidade em produtos e serviços.

O Brasil já construiu uma vantagem energética relevante.

O desafio agora é fazer com que ela atravesse toda essa cadeia e apareça no outro lado como menor custo, maior produtividade, mais investimento e maior capacidade de gerar valor.

Porque uma matriz elétrica excepcional é, por si só, uma vantagem.

Mas é a capacidade de transformá-la em produtividade que determina quanto dessa vantagem realmente chega à economia.


Fontes e referências

[1] Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Balanço Energético Nacional 2026 — ano-base 2025. 2026.

[2] Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL). Entenda a tarifa — Custo da energia que chega aos consumidores. 2026.

[3] International Energy Agency (IEA). Brazil 2025. 2025.

[4] Empresa de Pesquisa Energética (EPE) / Ministério de Minas e Energia (MME). PDE 2035 — Investimentos em transmissão até 2035. 2026.

[5] Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). PAR/PEL 2025 — Sumário Executivo. 2025.

[6] Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Anuário Estatístico de Energia Elétrica 2026. 2026.

[7] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Brasil Mais Produtivo. 2026.

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