Nada termina aqui

O que é economia circular — e como ela muda a forma de produzir?

Entenda o que é economia circular, como produtos e materiais podem permanecer em uso por mais tempo e por que esse modelo transforma a forma de produzir e consumir.

Por @redacao •
Instalação industrial com produtos, componentes e materiais circulando em um sistema de produção circular.
Imagem gerada com IA

Durante muito tempo, a economia foi organizada em torno de uma sequência relativamente simples: extrair recursos, transformá-los em produtos, utilizá-los e, depois, descartá-los.

Esse modelo linear permitiu ampliar a produção e o consumo em escala, mas também aumentou a necessidade de novos recursos naturais e a quantidade de materiais que deixam de ter utilidade econômica depois do uso.

A economia circular propõe uma lógica diferente. Em vez de considerar o descarte como uma etapa inevitável do processo, busca manter produtos, componentes e materiais em circulação pelo maior tempo possível, preservando seu valor e reduzindo a necessidade de novos recursos. [1][2]

Por isso, economia circular não significa simplesmente reciclar mais. A mudança começa antes: no desenho dos produtos, na forma como são produzidos e utilizados e nos sistemas que permitem repará-los, reutilizá-los, recondicioná-los, remanufaturá-los ou recuperar seus materiais. [1][3]

A ideia é mudar a própria lógica de produção e consumo.


Infográfico compara a economia linear, baseada em extrair, produzir, usar e descartar, com a economia circular, que mantém produtos e materiais em circulação.
A economia linear segue o caminho da extração ao descarte, enquanto a economia circular busca manter produtos, componentes e materiais em circulação pelo maior tempo possível. — Infográfico: Movdin

O que significa economia circular?

A economia circular é um modelo econômico que procura manter produtos e materiais em uso pelo maior tempo possível, evitar a geração de resíduos e reduzir os impactos associados ao uso de recursos ao longo de seu ciclo de vida. A OCDE resume o conceito como uma economia em que o valor dos materiais é maximizado e mantido pelo maior tempo possível, a entrada e o consumo de materiais são reduzidos e a geração de resíduos e os impactos ambientais negativos são prevenidos ou diminuídos. [1]

A Fundação Ellen MacArthur, uma das principais referências internacionais sobre o tema, organiza a economia circular em três princípios:

  1. Eliminar resíduos e poluição;
  2. Circular produtos e materiais em seu maior valor;
  3. Regenerar a natureza. [2]

Os princípios são orientados pelo design: a forma como produtos, componentes e sistemas são concebidos determina grande parte das possibilidades de manutenção, reparo, reúso, recuperação e reciclagem existentes depois. [2][3]

A diferença em relação ao modelo linear pode ser representada de maneira simples:

Economia linear
Extrair → produzir → usar → descartar

Economia circular
Projetar → produzir → usar → manter → reutilizar → reparar → recondicionar → remanufaturar → reciclar

Essa sequência não significa que todo produto precise passar por todas essas etapas. O objetivo é encontrar formas de conservar sua utilidade e seu valor pelo maior tempo possível.

Um celular, por exemplo, possui mais valor econômico enquanto continua funcionando como aparelho do que depois de ser desmontado para a recuperação de seus materiais. Por isso, manter, reutilizar, reparar ou recondicionar um produto pode preservar mais valor do que desmontá-lo e reciclá-lo. [3]

A reciclagem continua sendo importante, mas não é sinônimo de economia circular. Ela é uma das estratégias utilizadas quando outras formas de manter o produto ou seus componentes em circulação já não são possíveis ou adequadas. [3]

Por que o modelo linear tem um problema econômico?

O problema do modelo linear não está apenas na quantidade de resíduos gerada.

Existe também uma questão de uso dos recursos e preservação de valor econômico.

Um produto incorpora materiais, energia, trabalho, infraestrutura e outros recursos utilizados ao longo de sua cadeia de produção. Quando esse produto deixa de ser utilizado prematuramente, parte do valor associado a esses recursos deixa de ser aproveitada.

Imagine um computador.

Para chegar ao consumidor, ele dependeu de minerais, componentes eletrônicos, energia, transporte, mão de obra e uma cadeia de fornecedores. Se o equipamento é descartado enquanto ainda poderia ser reparado ou utilizado por outra pessoa, existe uma oportunidade de conservar parte desse valor.

A economia circular procura justamente ampliar essas possibilidades.

Em vez de considerar determinado material apenas como algo que precisa ser eliminado, a pergunta passa a ser: Ainda existe valor que pode ser preservado?

Um equipamento pode ser reparado.
Uma peça pode ser reutilizada.
Um produto pode ser recondicionado.
Um componente pode ser remanufaturado.
Um material pode voltar a ser utilizado como matéria-prima.

Essa lógica está relacionada ao conceito de produtividade dos recursos: obter mais valor econômico a partir dos recursos utilizados. A OCDE considera a produtividade material uma medida da eficiência com que uma economia utiliza materiais para gerar valor econômico. [1][4]

Por isso, economia circular também envolve eficiência no uso de recursos, produtividade e resiliência das cadeias de produção, além da gestão de resíduos. [1]

Onde começa a circularidade?

Ela começa muito antes do descarte.

Um dos pontos mais importantes da economia circular é o design.

É durante o projeto de um produto que muitas características de sua vida útil são definidas: quais materiais serão utilizados, quanto ele poderá durar, se suas peças poderão ser substituídas, se será possível desmontá-lo e quais alternativas existirão depois do uso. [2][3]

Um produto projetado para ser difícil de reparar ou desmontar possui menos possibilidades de circulação.

Já um produto concebido para durar, receber manutenção, permitir a substituição de componentes e ser desmontado pode permanecer em uso durante mais tempo.

Entre as características associadas ao design circular estão:

  • durabilidade;
  • reparabilidade;
  • modularidade;
  • facilidade de manutenção;
  • possibilidade de desmontagem;
  • substituição de componentes;
  • reutilização;
  • recuperação de materiais. [3]

Um exemplo simples ajuda a entender.

Imagine dois eletrodomésticos com a mesma função.

No primeiro, uma pequena falha exige a substituição de todo o equipamento.

No segundo, a peça defeituosa pode ser substituída individualmente e o restante do produto continua funcionando.

O segundo apresenta uma característica mais compatível com a lógica circular porque permite prolongar a utilização do produto e preservar uma parcela maior dos recursos já incorporados a ele.

Por isso, a circularidade começa no projeto com uma pergunta fundamental: Como esse produto poderá continuar útil depois de seu primeiro ciclo de uso?

O que acontece com o produto depois do uso?

Quando um produto chega ao fim de seu primeiro uso, isso não significa necessariamente que chegou ao fim de sua vida útil.

Existem diferentes maneiras de mantê-lo circulando.


Infográfico mostra caminhos para manter produtos e materiais em circulação após o uso, como reparo, reutilização, recondicionamento, remanufatura e reciclagem.
Depois do primeiro uso, produtos e componentes podem seguir diferentes caminhos para preservar seu valor, como manutenção, reparo, reutilização, recondicionamento, remanufatura e reciclagem. — Infográfico: Movdin

Reutilização

É o uso novamente de um produto ou componente para sua finalidade, sem uma transformação significativa.

Um móvel usado, por exemplo, pode ser vendido para outra pessoa e continuar desempenhando a mesma função.

Reparo

Consiste em corrigir uma falha ou substituir componentes para que o produto volte a funcionar.

O objetivo é prolongar sua vida útil.

Recondicionamento

É a recuperação de um produto usado para que ele volte a ser disponibilizado para uso, normalmente depois de inspeção, limpeza, manutenção, substituição de componentes ou outros procedimentos adequados ao produto.

É comum, por exemplo, no mercado de equipamentos eletrônicos.

Remanufatura

É um processo mais abrangente. Produtos ou componentes usados são desmontados, avaliados, recuperados e reconstituídos para voltar a apresentar desempenho especificado pelo fabricante ou equivalente ao de um produto novo, conforme o processo adotado. [5]

Isso diferencia a remanufatura de um simples reparo: o objetivo não é apenas fazer uma unidade específica voltar a funcionar, mas recuperar componentes ou produtos dentro de um processo estruturado de produção.

Reciclagem

Na reciclagem, o produto ou componente é processado para recuperar materiais que poderão ser utilizados na produção de novos materiais ou produtos.

Ela é importante porque permite que materiais continuem na economia em vez de serem encaminhados para descarte.

Mas existe uma diferença importante: quando um produto inteiro é reutilizado ou reparado, sua forma e sua função podem ser preservadas. Na reciclagem, o produto deixa de existir como tal e seus materiais passam por uma nova transformação. [3]

Por isso, na abordagem da Fundação Ellen MacArthur, manter um produto em uso e reutilizá-lo tende a preservar mais de seu valor do que desmontá-lo para reciclagem. [3]

E os materiais orgânicos?

Nem todo material precisa retornar à indústria.

Materiais biodegradáveis que não podem mais ser utilizados como produtos podem seguir um ciclo biológico, por processos como compostagem e digestão anaeróbia, desde que sejam apropriados para esse tipo de tratamento. [3][5]

Resíduos orgânicos, por exemplo, podem gerar composto ou, em determinadas condições, biogás e outros produtos resultantes da digestão anaeróbia.

A economia circular trabalha, portanto, com dois grandes ciclos:

Ciclo técnico: mantém produtos, componentes e materiais industriais em circulação por meio de estratégias como manutenção, reúso, reparo, recondicionamento, remanufatura e reciclagem.

Ciclo biológico: permite que materiais biodegradáveis apropriados retornem à biosfera de maneira segura, por processos como compostagem e digestão anaeróbia. [3][5]

Essa distinção é importante porque nem todo material deve ser tratado da mesma maneira.

Economia circular também muda os modelos de negócio

Se produtos e componentes precisam permanecer úteis por mais tempo, a economia circular também pode alterar a relação entre empresas, produtos e consumidores.

Em vez de depender exclusivamente da venda de produtos, alguns modelos de negócio podem trabalhar com:

  • aluguel;
  • assinatura;
  • compartilhamento;
  • produto como serviço;
  • manutenção;
  • reparo;
  • recompra;
  • revenda;
  • recondicionamento. [3][6]

Imagine uma empresa que, em vez de vender uma máquina industrial, cobra pelo uso ou pelo serviço prestado por ela.

Nesse modelo, a empresa pode continuar responsável pela manutenção, atualização e recuperação do equipamento durante sua utilização.

Outro exemplo é o mercado de produtos recondicionados. Um equipamento que deixou de ser interessante para seu primeiro proprietário pode ser recuperado e colocado novamente em circulação.

Esses modelos podem criar novas oportunidades econômicas porque transformam a extensão da vida útil, a manutenção e a recuperação de produtos em atividades econômicas permanentes.

No Brasil, a própria Estratégia Nacional de Economia Circular prevê o desenvolvimento de mercados para produtos reutilizáveis, recondicionados e reciclados e o desenvolvimento de negócios circulares. [6][7]

A lógica, portanto, não é apenas produzir um produto e vendê-lo.

É pensar em como seu valor poderá continuar sendo aproveitado ao longo do tempo.

E o que isso significa para o Brasil?

A economia circular já faz parte da política econômica e industrial brasileira.

Em 27 de junho de 2024, o governo federal instituiu a Estratégia Nacional de Economia Circular (ENEC) por meio do Decreto nº 12.082. A estratégia tem como finalidade promover a transição do modelo de produção linear para uma economia circular, incentivando o uso eficiente dos recursos naturais e práticas circulares ao longo das cadeias produtivas. [7]

O decreto estabelece como diretrizes:

  • eliminar a poluição e reduzir a geração de rejeitos e resíduos;
  • manter o valor dos materiais;
  • regenerar o meio ambiente;
  • reduzir a dependência de recursos naturais;
  • promover produção e consumo sustentáveis;
  • aumentar o ciclo de vida dos materiais;
  • garantir uma transição justa, inclusiva e equitativa. [7]

A ENEC está organizada em cinco eixos estratégicos, que incluem ambiente normativo e institucional, inovação e competências, redução do uso de recursos e da geração de resíduos, instrumentos financeiros e participação de trabalhadores e trabalhadoras da economia circular. [6]

O Brasil também passou a estruturar o Plano Nacional de Economia Circular (PLANEC) 2025–2034, que detalha ações para implementar a estratégia nacional. O plano contempla temas como ambiente regulatório, inovação, educação, infraestrutura, financiamento, cadeias produtivas e consumo. [8]

Esse ponto é importante: o Plano Nacional não parte apenas da reciclagem.

A política brasileira trata a economia circular como uma agenda que envolve produção, indústria, inovação, infraestrutura, financiamento, trabalho, consumo e gestão de recursos. [6][7][8]

Isso é particularmente relevante para um país com cadeias produtivas extensas e diversificadas.

Em setores como indústria, mineração, construção, agricultura, alimentos, energia e bens de consumo, existem diferentes oportunidades para reduzir perdas, prolongar a utilização de produtos e recuperar materiais.

A pergunta passa a ser: Como gerar mais valor econômico utilizando os recursos de maneira mais eficiente?

Para acompanhar essa transformação, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mantém o Painel de Indicadores da Economia Circular Brasileira, que reúne dados de diferentes fontes para apoiar o monitoramento da transição e subsidiar políticas públicas e estratégias empresariais. [9]

Economia circular não significa eliminar o consumo

Economia circular não significa simplesmente deixar de consumir.

O conceito procura mudar a maneira como produtos e materiais são projetados, produzidos, utilizados e reinseridos na economia.

Um consumidor pode continuar comprando roupas, por exemplo, mas uma cadeia mais circular pode buscar produtos mais duráveis, reparáveis e reutilizáveis e materiais que possam ser recuperados de maneira adequada.

Da mesma maneira, uma empresa pode continuar adquirindo equipamentos, mas pode optar por produtos projetados para manutenção, atualização e substituição de componentes.

A questão deixa de ser apenas: “Quanto estamos consumindo?”

E passa a incluir: “Quanto valor conseguimos obter dos recursos que utilizamos?”

Essa mudança aproxima a discussão ambiental de questões econômicas.

Se uma empresa desperdiça matéria-prima, descarta produtos prematuramente ou perde materiais que poderiam ser recuperados, existe uma perda de recursos.

Se consegue prolongar a vida útil de seus ativos, recuperar componentes ou reduzir perdas de materiais, pode encontrar novas oportunidades de eficiência e geração de valor.

A economia circular, portanto, não depende apenas de mudanças no comportamento do consumidor. Ela envolve decisões de design, engenharia, produção, logística, infraestrutura, tecnologia, modelos de negócio e políticas públicas. [6][7]

O que muda quando a economia fica mais circular?

A economia circular altera uma lógica que durante muito tempo pareceu natural: produzir, usar e descartar.

Em seu lugar, propõe uma economia na qual produtos, componentes e materiais possam permanecer úteis pelo maior tempo possível.

Isso pode significar:

Produtos mais duráveis
Projetados para permanecer em funcionamento por mais tempo.

Mais manutenção e reparo
Falhas deixam de significar necessariamente o descarte do produto inteiro.

Mais reutilização
Um produto pode continuar atendendo a outro usuário depois de seu primeiro ciclo de uso.

Mais recondicionamento e remanufatura
Produtos e componentes podem retornar ao mercado depois de processos de recuperação adequados.

Maior aproveitamento dos materiais
Recursos que já foram extraídos e processados podem permanecer em circulação por mais tempo.

Novos modelos de negócio
Aluguel, compartilhamento, assinatura, produto como serviço, recompra e mercados de produtos usados ou recondicionados podem ganhar espaço.

Menos geração de resíduos
Parte dos materiais que seriam descartados pode continuar sendo aproveitada.

Novas oportunidades industriais
A recuperação de produtos, componentes e materiais pode criar novas atividades econômicas e cadeias de valor. [6][7]

A transformação, portanto, não acontece apenas na etapa final do processo.

Ela começa quando uma empresa decide o que produzir, com quais materiais, para quanto tempo, de que maneira o produto será utilizado e quais possibilidades existirão depois do primeiro ciclo de uso.

É por isso que a economia circular representa uma mudança na forma de pensar a produção.

Afinal, o que é economia circular?

Economia circular é uma forma de organizar a produção e o consumo para evitar desperdícios, manter produtos e materiais em circulação e reduzir a pressão sobre recursos naturais, preservando o máximo possível do valor econômico associado a eles. [1][2][7]

Ela não se resume à reciclagem.

A reciclagem é uma das ferramentas disponíveis. Antes dela, podem existir outras possibilidades: manter produtos em funcionamento, fazer manutenção, reparar, reutilizar, recondicionar ou remanufaturar. [3]

E antes dessas etapas existe uma decisão ainda mais importante: o projeto.

A economia circular começa quando produtos e sistemas são pensados para que seu valor não termine no momento em que o primeiro usuário deixa de utilizá-los.

No modelo linear, o fim do produto tende a ser o descarte.

No modelo circular, o fim de um uso pode representar o início de outro.

A economia circular não trata apenas do que fazer com aquilo que foi descartado. Ela começa pela pergunta sobre por que aquilo precisou ser descartado.


Fontes e referências

[1] OECD — Organisation for Economic Co-operation and Development. Monitoring Progress towards a Resource-Efficient and Circular Economy.

[2] Ellen MacArthur Foundation. O que é a economia circular?

[3] Ellen MacArthur Foundation. Circular produtos e materiais.

[4] OECD — Organisation for Economic Co-operation and Development. Environment at a Glance Indicators — Circular economy: waste and materials.

[5] Ellen MacArthur Foundation. Glossário da economia circular.

[6] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O que é a Estratégia Nacional de Economia Circular?

[7] Brasil. Presidência da República. Decreto nº 12.082, de 27 de junho de 2024.

[8] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Plano Nacional de Economia Circular 2025–2034.

[9] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Painel de Indicadores da Economia Circular Brasileira.

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