O Custo Brasil é uma forma de dimensionar quanto custa a mais produzir e fazer negócios no país em comparação com a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). [1]
O conceito reúne diferentes obstáculos estruturais, econômicos e burocráticos que afetam uma empresa ao longo de sua existência. Eles podem aparecer na abertura de um negócio, no acesso a crédito, na contratação de trabalhadores, no uso de infraestrutura, na compra de insumos, no cumprimento de obrigações tributárias e regulatórias, no acesso a serviços públicos e mercados, na inovação e até na reorganização ou encerramento de uma atividade. [2]
Por isso, o Custo Brasil não é uma despesa específica, um imposto ou uma cobrança que apareça com esse nome.
Ele é uma medida do custo excedente associado às condições de fazer negócios no Brasil, calculada a partir de uma metodologia que compara diferentes indicadores brasileiros com uma referência internacional. [1][2]
Na atualização baseada em dados de 2021, realizada pelo Movimento Brasil Competitivo (MBC) em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV), o Custo Brasil foi estimado em R$ 1,7 trilhão, valor equivalente a cerca de 19,5% do PIB brasileiro. O montante é uma estimativa anual em valores de 2021 e não corresponde a uma conta de R$ 1,7 trilhão cobrada diretamente das empresas ou da população. [1][3]
Entender essa diferença é o primeiro passo para compreender o conceito.
O que, afinal, está por trás do Custo Brasil?
Toda empresa enfrenta custos para funcionar.
Há salários, energia, matérias-primas, transporte, financiamento, tributos, tecnologia, instalações e uma série de outras despesas. Esses custos existem em qualquer economia e, portanto, não podem ser simplesmente classificados como Custo Brasil.
O conceito procura identificar o que é acrescentado a essas condições quando se compara o ambiente brasileiro com a referência utilizada pela metodologia.
Imagine duas empresas semelhantes, uma no Brasil e outra em uma economia da OCDE, realizando uma operação equivalente.
Se a empresa brasileira precisa gastar mais recursos para financiar o negócio, transportar mercadorias, cumprir determinadas obrigações ou acessar determinados serviços, essa diferença pode representar um custo excedente.
O Custo Brasil procura justamente dimensionar essas diferenças.
Isso significa que o indicador não representa tudo aquilo que uma empresa brasileira paga para funcionar. Ele procura medir quanto as condições analisadas acrescentam ao custo de fazer negócios em comparação com a média dos países da OCDE. [1][2]
A metodologia organiza essa análise em 12 eixos, que abrangem diferentes etapas do ciclo de vida de uma empresa. [2]
Como o Custo Brasil é medido?
A metodologia desenvolvida pelo MBC em parceria com a FGV reúne 26 indicadores distribuídos por 12 eixos. [1][2]
Para cada indicador, é comparada a situação brasileira com a média observada nos países da OCDE. A diferença de custos ou condições é convertida em um valor econômico, e as diferenças dos componentes são agregadas para formar a estimativa total. [2]
Na atualização com dados de 2021, o resultado chegou a R$ 1,7 trilhão. [1]
Esse processo é importante porque transforma um problema amplo — e muitas vezes percebido apenas de maneira qualitativa — em uma estimativa econômica.
O valor, entretanto, deve ser interpretado dentro da metodologia.
Ele não significa que exista uma transferência direta de R$ 1,7 trilhão das empresas para o governo, nem que cada brasileiro tenha pago uma parcela desse montante.
A estimativa representa o custo anual excedente associado às diferenças identificadas pela metodologia. [1][2]
Em outras palavras, a pergunta que o indicador procura responder é:
Quanto a economia brasileira poderia economizar se determinadas condições de produção e de ambiente de negócios fossem semelhantes à média dos países da OCDE?

Os 12 eixos do Custo Brasil
Os 12 eixos representam diferentes dimensões do ciclo de vida empresarial. [2]
Eles não são 12 problemas independentes, nem 12 impostos. Cada eixo reúne indicadores específicos para medir uma determinada dimensão das condições de fazer negócios.
1. Abrir um negócio
Antes de produzir, vender ou contratar, uma empresa precisa existir formalmente.
A abertura envolve registros, procedimentos e custos administrativos. Também existe o tempo necessário para que a empresa seja formalizada e possa começar a operar.
A metodologia considera justamente dois indicadores nessa etapa: o custo para abrir um negócio e o prazo necessário para formalizá-lo. [2]
O mecanismo econômico é simples: quanto mais recursos financeiros e tempo forem necessários para começar, maior será o investimento exigido antes que a atividade produtiva tenha início.
Isso pode afetar principalmente empreendedores com pouco capital disponível.
Para uma empresa que já possui recursos abundantes, um custo inicial adicional pode representar uma parcela pequena do investimento. Para um pequeno negócio, o mesmo obstáculo pode representar uma barreira relevante à entrada.
Por isso, o custo de abertura também se relaciona à capacidade de uma economia de estimular novos negócios.
2. Financiar o negócio
Capital é necessário para praticamente todas as fases de uma empresa.
Uma companhia pode precisar de financiamento para comprar máquinas, construir instalações, manter estoques, desenvolver produtos ou simplesmente sustentar seu capital de giro enquanto recebe pelas vendas realizadas.
O eixo de financiamento considera o custo do crédito e o risco-país. [2]
O mecanismo econômico aparece na relação entre custo de capital e retorno esperado.
Suponha que uma empresa identifique um projeto capaz de gerar retorno. Se o financiamento necessário for barato o suficiente, o projeto pode ser economicamente viável.
Se o custo do capital subir, parte desse retorno será consumida pelos juros. Um projeto que antes fazia sentido pode passar a oferecer uma remuneração insuficiente para compensar o risco.
Isso significa que crédito mais caro não representa apenas uma despesa financeira maior. Ele pode alterar quais investimentos são realizados, em que escala e em quanto tempo.
O efeito também pode atingir a inovação. Uma empresa que consegue financiar uma nova máquina, software ou linha de produção pode aumentar sua produtividade. Se o financiamento se torna proibitivo, essa modernização pode ser adiada.
3. Empregar capital humano
Nenhuma atividade econômica funciona sem pessoas.
Mas o custo de utilizar trabalho não se resume ao salário pago.
O eixo considera habilidades da força de trabalho, encargos trabalhistas e judicialização e risco trabalhista. [2]
Há, portanto, pelo menos três dimensões.
A primeira é a disponibilidade de trabalhadores com as competências necessárias. Se uma empresa não encontra profissionais qualificados, pode precisar investir mais em treinamento ou operar abaixo de sua capacidade.
A segunda está relacionada aos custos associados à contratação.
A terceira envolve o grau de incerteza e os custos decorrentes de disputas e processos trabalhistas.
O efeito econômico aparece na produtividade e na capacidade de planejamento.
Uma empresa que precisa gastar mais para contratar, qualificar e administrar sua força de trabalho dispõe de menos recursos para outras atividades. Da mesma forma, maior incerteza pode influenciar decisões de contratação e expansão.
Isso não significa que direitos trabalhistas sejam, por si só, Custo Brasil. O que a metodologia procura dimensionar são os custos e diferenças associados aos indicadores analisados em comparação com a referência internacional.
4. Dispor da infraestrutura
Produzir significa também conseguir movimentar pessoas, mercadorias, informações e energia.
Por isso, infraestrutura está diretamente ligada ao funcionamento da economia.
O eixo considera custos e qualidade logística, infraestrutura de mobilidade urbana e capacidade da infraestrutura de telecomunicações. [2]
Uma estrada congestionada, uma operação logística ineficiente ou uma rede de comunicação limitada podem aumentar o tempo e os recursos necessários para realizar uma atividade.
O mecanismo pode ser entendido por uma cadeia simples: infraestrutura menos eficiente → mais tempo e recursos utilizados → maior custo operacional → menor produtividade.
O impacto não precisa aparecer como uma despesa isolada.
Um caminhão que passa mais tempo parado, por exemplo, representa utilização menos eficiente de veículo, combustível, motorista e capital. Um deslocamento urbano mais demorado reduz horas disponíveis para o trabalho. Uma infraestrutura de telecomunicações insuficiente pode limitar operações digitais.
Infraestrutura, portanto, não é apenas uma questão de obras. Ela determina parte da eficiência com que uma economia consegue movimentar seus recursos.
5. Acessar insumos básicos
Toda atividade produtiva depende de insumos.
Entre eles estão energia, combustíveis, matérias-primas, componentes e serviços necessários para transformar recursos em produtos e serviços.
Na metodologia do Custo Brasil, esse eixo considera especificamente o custo da energia elétrica e o custo do gás natural. [2]
O mecanismo é direto.
Quando um insumo essencial fica mais caro, ele aumenta o custo de produção das atividades que dependem dele.
Mas o efeito pode se espalhar.
Uma indústria com energia mais cara pode produzir com menor margem ou precisar elevar seus preços. Se o produto dessa indústria for utilizado como insumo por outra empresa, o aumento pode chegar à etapa seguinte da cadeia produtiva.
Assim, o custo de um insumo básico pode atravessar diferentes setores.
6. Atuar em ambiente jurídico-regulatório eficaz
Empresas precisam de regras para funcionar.
Contratos precisam ser protegidos, direitos precisam ser reconhecidos e atividades econômicas precisam obedecer a normas.
O problema econômico aparece quando os mecanismos necessários para dar segurança às relações empresariais funcionam de maneira lenta, imprevisível ou pouco eficiente.
O eixo considera a efetividade e a agilidade jurídica e a eficácia da regulação. [2]
Uma decisão judicial demorada pode manter recursos imobilizados. Uma autorização regulatória que demora além do necessário pode atrasar um investimento. Uma regra pouco clara pode aumentar o custo para compreender e cumprir uma obrigação.
Esses custos nem sempre aparecem em uma conta tradicional.
Podem aparecer como tempo, capital imobilizado, necessidade de assessoria, incerteza e atraso na execução de projetos.
É por isso que segurança jurídica e qualidade regulatória fazem parte da eficiência econômica.
7. Integrar com cadeias produtivas globais
As empresas não produzem necessariamente tudo aquilo de que precisam.
Elas podem importar máquinas, componentes, matérias-primas e tecnologias, assim como exportar produtos e integrar cadeias internacionais de produção.
Esse eixo considera, na metodologia, aspectos relacionados aos impostos incidentes sobre importações. [2]
A lógica econômica é que custos adicionais na entrada de produtos e insumos podem alterar a estrutura de preços e a competitividade das empresas.
Se uma indústria depende de determinado componente importado e o custo para trazê-lo ao país é maior, esse custo entra na operação.
Isso também pode afetar a adoção de novas tecnologias. Equipamentos e componentes estrangeiros podem ser importantes para modernizar uma linha de produção. Quanto maior o custo para acessá-los, maior pode ser a barreira à atualização tecnológica.
A integração internacional, portanto, não diz respeito apenas a exportar. Ela também influencia a capacidade de acessar insumos, máquinas, conhecimento e tecnologias produzidos em outros mercados.
8. Honrar tributos
Toda empresa precisa cumprir suas obrigações tributárias.
O custo econômico, porém, não se limita ao valor dos tributos pagos.
Uma empresa precisa identificar regras, calcular tributos, emitir documentos, manter registros, declarar informações e acompanhar mudanças na legislação.
O eixo considera complexidade tributária, carga tributária do setor, resíduo tributário sobre exportações e economia informal. [2]
Essa distinção é importante.
O fato de um tributo existir não significa, sozinho, que seu valor seja Custo Brasil. A metodologia procura medir diferenças associadas aos componentes analisados.
A complexidade também importa porque consome recursos.
Horas de trabalho de profissionais especializados, sistemas, consultorias e processos administrativos são recursos econômicos. Quando uma parcela maior desses recursos é direcionada para lidar com a complexidade do sistema, sobra menos para atividades diretamente produtivas.
O impacto pode alcançar também a competitividade internacional quando custos tributários não são adequadamente neutralizados nas exportações.
9. Acessar serviços públicos
Empresas dependem de serviços públicos para funcionar.
Licenças, registros, informações, sistemas digitais e diversos outros serviços fazem parte do ambiente em que os negócios operam.
O eixo considera a digitalização dos serviços públicos e sua efetividade. [2]
Quando um serviço pode ser realizado de maneira digital, rápida e previsível, o custo de acessá-lo tende a ser menor.
Quando exige deslocamentos, documentos, etapas manuais ou múltiplas interações, pode consumir mais tempo e recursos.
Esse é um exemplo claro de como o Custo Brasil pode existir mesmo sem uma cobrança financeira direta.
O custo pode ser simplesmente o tempo necessário para resolver algo que poderia ser resolvido de maneira mais eficiente.
10. Reinventar o negócio
Uma empresa não opera em um ambiente estático.
Tecnologias mudam, consumidores mudam, concorrentes surgem e modelos de negócio são transformados.
Por isso, uma economia competitiva precisa permitir que empresas inovem.
O eixo considera a capacidade de inovação. [2]
A relação com o Custo Brasil está na capacidade de uma empresa transformar recursos em novas tecnologias, produtos e processos.
Se uma empresa consegue inovar com eficiência, pode reduzir custos, aumentar produtividade ou criar novos mercados.
Quando obstáculos reduzem sua capacidade de inovar, ela pode perder competitividade não apenas no presente, mas também no futuro.
Esse eixo amplia a compreensão do Custo Brasil: ele não trata somente do custo de operar hoje, mas também das condições para se adaptar ao que virá amanhã.
11. Competir e ser desafiado de forma justa
A concorrência é um dos mecanismos que pressionam empresas a melhorar.
Quando empresas disputam consumidores, precisam buscar eficiência, qualidade, inovação e preços competitivos.
Esse eixo considera o nível de interferência estatal e a abertura à entrada de investimentos. [2]
A questão econômica é saber se novos concorrentes conseguem entrar no mercado e se as condições de competição permitem que empresas eficientes tenham espaço para disputar.
Barreiras excessivas à entrada podem proteger estruturas existentes e reduzir os incentivos à eficiência.
Da mesma forma, condições que dificultam a entrada de investimentos podem limitar a chegada de capital, tecnologia e novos modelos de negócio.
Competição, portanto, não significa apenas quantidade de empresas. Significa também condições para que novos agentes possam desafiar aqueles que já estão no mercado.
12. Retomar ou encerrar o negócio
Nem toda empresa será bem-sucedida.
Uma economia eficiente precisa permitir que negócios viáveis continuem e que recursos sejam realocados quando uma atividade deixa de funcionar.
O eixo considera as restrições aplicadas a empresas em recuperação judicial. [2]
A questão central é o que acontece quando uma empresa entra em dificuldades financeiras.
Processos de recuperação precisam criar condições para reorganização quando existe viabilidade econômica. Quando a recuperação é inviável, recursos também precisam poder ser direcionados para atividades mais produtivas.
Processos excessivamente demorados podem manter capital, ativos e outros recursos presos durante longos períodos.
Por isso, a capacidade de reorganizar ou encerrar uma empresa também influencia a eficiência de toda a economia.
Como os 12 eixos se conectam?
Os 12 eixos são apresentados separadamente porque isso facilita a medição. Na realidade econômica, porém, eles estão profundamente relacionados.
Uma empresa pode precisar de financiamento para investir em infraestrutura própria. Pode depender de energia para produzir, de logística para distribuir, de trabalhadores qualificados para operar e de serviços públicos para cumprir suas obrigações.
Um obstáculo em uma dessas etapas pode aumentar o custo de outra.
Imagine uma empresa que pretende expandir uma fábrica.
Ela precisa financiar o investimento. Depois, precisa adquirir equipamentos, contratar trabalhadores, utilizar energia e transportar os produtos. Também precisa cumprir regras, pagar tributos e acessar mercados.
Se o crédito for caro, o investimento pode diminuir.
Se a infraestrutura logística for ineficiente, o custo da operação pode aumentar.
Se houver dificuldade para encontrar trabalhadores qualificados, a empresa pode precisar gastar mais com treinamento.
Se a regulação atrasar a implantação do projeto, o capital investido pode permanecer improdutivo por mais tempo.
Nenhum desses fatores precisa ocorrer isoladamente.
O Custo Brasil aparece justamente na interação entre eles.

Como o Custo Brasil aparece na prática?
Uma maneira de compreender o problema é acompanhar uma empresa ao longo de sua trajetória.
Ela começa abrindo o negócio. Depois precisa obter capital, contratar pessoas e adquirir insumos.
A produção depende de energia, infraestrutura e tecnologia.
A operação precisa cumprir regras e obrigações tributárias.
Os produtos precisam ser transportados e vendidos.
A empresa pode querer exportar, incorporar uma nova tecnologia, entrar em outro mercado ou mudar seu modelo de negócio.
Em algum momento, pode precisar reorganizar sua operação ou encerrá-la.
Cada uma dessas etapas envolve custos.
O Custo Brasil procura identificar quanto as condições brasileiras acrescentam a esses custos em comparação com a referência internacional utilizada pela metodologia. [1][2]
Como um custo se transforma em outro?
O efeito mais importante não está apenas no custo de uma etapa, mas na possibilidade de ele influenciar as etapas seguintes.
Considere novamente a logística.
Uma operação de transporte mais cara aumenta o custo direto de movimentar uma mercadoria.
Se o transporte também for menos previsível ou mais demorado, a empresa pode precisar manter estoques maiores.
Estoques maiores imobilizam capital.
Mais capital imobilizado pode aumentar a necessidade de capital de giro.
A necessidade adicional de financiamento pode elevar as despesas financeiras.
No final, a empresa terá algumas alternativas: absorver parte do custo, reduzir sua margem, buscar eficiência em outra etapa, alterar fornecedores, reduzir investimentos ou repassar parte do aumento ao preço.
O exemplo mostra uma característica essencial do Custo Brasil:
Um custo que surge em uma etapa pode modificar as decisões tomadas em outras.
Esse mecanismo pode ocorrer em diferentes combinações entre infraestrutura, financiamento, tributação, regulação, trabalho e insumos.
Custo Brasil não é sinônimo de preço mais alto
É comum associar Custo Brasil imediatamente a produtos mais caros.
Existe uma relação possível, mas ela não é automática.
Uma empresa que enfrenta um custo maior pode:
- repassar parte ao preço;
- absorver o impacto na margem;
- reduzir despesas em outra área;
- mudar fornecedores;
- adiar investimentos;
- alterar a escala da operação;
- desistir de determinado projeto.
O comportamento depende do setor, da concorrência, da estrutura de custos e da capacidade da empresa de absorver ou repassar o impacto.
Além disso, preços são influenciados por diversos outros fatores: oferta e demanda, câmbio, matérias-primas, tecnologia, concorrência e condições internacionais.
O Custo Brasil representa uma condição estrutural do ambiente econômico, não uma explicação automática para qualquer diferença de preço.
É possível, portanto, que o Custo Brasil produza efeitos importantes mesmo quando nenhum aumento correspondente aparece imediatamente na etiqueta de um produto.
Quem absorve o custo?
A resposta depende do tipo de custo e de como o mercado reage.
Uma empresa pode absorver parte de uma despesa adicional reduzindo sua margem.
Outra pode conseguir repassar uma parcela aos consumidores.
Uma terceira pode decidir não realizar um investimento.
Um fornecedor pode alterar seus preços, fazendo o custo aparecer em outra etapa da cadeia.
O resultado é uma distribuição do impacto entre diferentes agentes.
Por isso, não existe necessariamente um único “pagador” do Custo Brasil.
Empresas, consumidores, trabalhadores e investidores podem sentir seus efeitos de maneiras diferentes.
O que isso significa para as empresas?
Para uma empresa, o custo excedente pode influenciar decisões fundamentais.
Investimento
Quanto maior o custo necessário para realizar um projeto, maior precisa ser o retorno esperado para que o investimento seja atrativo.
Se o custo aumenta sem que o retorno acompanhe, o projeto pode ser reduzido ou adiado.
Margem
Quando a empresa não consegue repassar custos ao consumidor, parte do impacto pode ser absorvida pela margem.
Isso reduz os recursos disponíveis para reinvestimento.
Produtividade
Quando mais recursos são utilizados para realizar uma determinada atividade, a quantidade de valor gerada por esses recursos pode diminuir.
Esse é um dos vínculos mais importantes entre Custo Brasil e produtividade.
Inovação
Recursos consumidos para superar ineficiências deixam de estar disponíveis para pesquisa, desenvolvimento, tecnologia e novos processos.
Competitividade
Uma empresa que enfrenta custos maiores do que seus concorrentes internacionais precisa encontrar outras formas de compensar essa diferença.
Pode ter de reduzir margens, aumentar produtividade ou buscar vantagens em outras etapas.
Quando isso não é possível, sua capacidade de competir diminui.
O que é produtividade — e por que ela importa aqui?
Produtividade está relacionada à capacidade de gerar mais valor utilizando determinada quantidade de recursos.
Imagine duas empresas que utilizam a mesma quantidade de trabalhadores, capital e tecnologia.
Se uma delas precisa dedicar uma parcela muito maior desses recursos a superar burocracia, atrasos, custos logísticos ou dificuldades operacionais, sobra menos capacidade para produzir.
É nesse sentido que o Custo Brasil pode afetar produtividade.
Não necessariamente porque um trabalhador brasileiro seja menos produtivo, mas porque o ambiente no qual o trabalho acontece pode exigir mais recursos para produzir o mesmo resultado.
A diferença é fundamental.
O problema pode estar menos na capacidade de quem produz e mais nas condições que cercam a produção.
O efeito sobre os investimentos
Investimentos dependem de uma combinação de retorno, custo e risco.
Quando fazer negócios se torna mais caro ou menos previsível, alguns projetos podem deixar de atingir o retorno necessário para justificar o capital empregado.
Isso pode afetar:
- expansão de fábricas;
- compra de equipamentos;
- abertura de unidades;
- adoção de tecnologias;
- desenvolvimento de produtos;
- entrada em novos mercados.
Isso não significa que todo investimento não realizado seja causado pelo Custo Brasil.
Decisões de investimento são influenciadas por inúmeras variáveis.
O ponto é que custos estruturais fazem parte da equação que determina a atratividade econômica de um projeto.
E existem oportunidades que deixam de acontecer
Essa é uma das dimensões mais difíceis de enxergar.
Uma empresa que não abre uma unidade porque o investimento deixou de ser viável não gera uma despesa chamada “oportunidade perdida”.
Um projeto que não sai do papel também não aparece em uma conta econômica como um custo diretamente observável.
Mas a ausência daquela atividade pode significar:
- menos produção;
- menos inovação;
- menos competição;
- menos empregos;
- menor utilização de infraestrutura;
- menor geração de valor.
Por isso, analisar o Custo Brasil apenas pelo que aparece nas despesas ou nos preços é insuficiente.
Parte do impacto está no que deixa de ser feito.

Por que reduzir o Custo Brasil é complexo?
Os 12 eixos mostram que não existe uma única causa.
Há questões relacionadas a: capital → trabalho → infraestrutura → energia → regulação → tributos → serviços públicos → comércio → inovação → concorrência.
Esses fatores também se influenciam.
Uma melhoria no crédito pode facilitar investimentos.
Uma infraestrutura melhor pode aumentar a produtividade desse investimento.
Uma regulação mais eficiente pode reduzir o tempo necessário para colocar o projeto em funcionamento.
Uma tributação mais simples pode diminuir o esforço administrativo.
Uma economia mais competitiva pode aumentar os incentivos para inovar.
Por isso, reduzir o Custo Brasil não significa simplesmente eliminar uma taxa ou alterar uma única regra.
Significa melhorar as condições de funcionamento de diferentes partes da economia ao mesmo tempo.
O que pode reduzir o Custo Brasil?
As soluções dependem do eixo afetado.
Simplificação
Processos mais simples podem reduzir tempo, burocracia e recursos administrativos consumidos pelas empresas.
Infraestrutura
Melhores redes de transporte, energia, telecomunicações e mobilidade podem reduzir custos e aumentar produtividade.
Financiamento
Crédito mais acessível e condições melhores de financiamento podem viabilizar investimentos produtivos.
Eficiência regulatória e jurídica
Regras claras, previsíveis e processos mais eficientes podem reduzir incertezas e custos de transação.
Produtividade
Tecnologia, qualificação e melhores processos podem permitir que empresas produzam mais valor com os recursos disponíveis.
Serviços públicos
Serviços mais eficientes e digitalizados podem reduzir tempo e esforço necessários para cumprir procedimentos.
Integração internacional
Melhores condições para acessar mercados, insumos e tecnologias podem aumentar a competitividade das empresas.
Inovação
Um ambiente capaz de estimular novas tecnologias e modelos de negócio aumenta a capacidade de adaptação das empresas.
Nenhuma dessas frentes, isoladamente, elimina o Custo Brasil.
A redução depende da atuação sobre diferentes pontos do ambiente econômico.
Custo Brasil em uma visão geral
O conceito pode ser entendido como uma sequência:
12 eixos
↓
diferenças de custos e condições em relação à média da OCDE
↓
custos excedentes para fazer negócios
↓
impactos sobre a atividade empresarial
↓
decisões sobre preços, margens, investimentos e operações
↓
efeitos sobre produtividade e competitividade
↓
impactos sobre o crescimento econômico
Essa sequência ajuda a compreender por que o Custo Brasil não termina onde o custo começa.
Um problema pode surgir em uma etapa e produzir consequências em outra.
Um custo financeiro pode afetar investimento.
Uma deficiência de infraestrutura pode afetar logística.
Uma dificuldade regulatória pode afetar o prazo de um projeto.
Uma limitação de produtividade pode afetar competitividade.
Uma combinação desses fatores pode alterar a decisão de investir.
Em resumo
O Custo Brasil é uma estimativa do custo excedente associado às condições de fazer negócios no país em comparação com a média da OCDE. [1][2]
A metodologia desenvolvida pelo MBC e pela FGV organiza esse problema em 12 eixos e 26 indicadores que acompanham diferentes dimensões do ciclo de vida empresarial. [1][2]
Eles abrangem desde a abertura e o financiamento de um negócio até trabalho, infraestrutura, insumos, ambiente jurídico-regulatório, integração internacional, tributos, serviços públicos, inovação, concorrência e recuperação ou encerramento de empresas. [2]
Na atualização baseada em dados de 2021, a estimativa chegou a R$ 1,7 trilhão, cerca de 19,5% do PIB daquele ano. [1]
Esse valor não representa uma cobrança direta sobre empresas ou consumidores. Ele procura dimensionar quanto os custos analisados no Brasil excedem a referência internacional utilizada na metodologia. [1][2]
O mais importante, porém, está além do número.
O Custo Brasil ajuda a entender como as condições de funcionamento de uma economia influenciam aquilo que as empresas conseguem produzir, investir, inovar e oferecer ao mercado.
Um custo maior pode aparecer no preço. Pode ser absorvido pela margem. Pode reduzir investimentos. Pode diminuir produtividade. Pode dificultar a entrada de novos concorrentes.
E também pode fazer com que determinadas oportunidades simplesmente não aconteçam.
Por isso, compreender o Custo Brasil é compreender uma questão mais ampla:
quanto custa transformar capital, trabalho, tecnologia e recursos em produção, investimento, inovação e crescimento no Brasil?
Essa é a dimensão econômica que está por trás da expressão Custo Brasil.
Fontes e referências
[1] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Como foi feita a estimativa do Custo Brasil. 2024.
[2] Observatório do Custo Brasil. Custo Brasil. 2026.
[3] Movimento Brasil Competitivo (MBC). Observatório do Custo Brasil. 2026.