Por que produzir, investir e fazer negócios no Brasil pode ser mais caro do que em outras economias? A resposta passa por um conjunto de obstáculos que afeta empresas de todos os tamanhos — e pode chegar ao consumidor.
Quando um produto chega ao supermercado, uma série de custos já foi incorporada ao seu preço. Há o valor da matéria-prima, da mão de obra e da energia, mas também despesas com transporte, financiamento, impostos, infraestrutura, burocracia e cumprimento de regras.
Quando esses custos são maiores do que poderiam ser, a economia perde eficiência. É nesse contexto que aparece o chamado Custo Brasil.
O termo não designa um imposto específico nem uma cobrança feita diretamente da população. Ele representa o conjunto de custos adicionais e ineficiências estruturais, burocráticas e econômicas que tornam mais caro produzir e operar no país.[1]
E, embora seja um conceito utilizado principalmente para analisar a competitividade das empresas, seus efeitos podem alcançar preços, investimentos, empregos, produtividade e crescimento econômico.
O que é o Custo Brasil?
De forma simples, o Custo Brasil é o custo adicional enfrentado para produzir e fazer negócios no Brasil em comparação com um ambiente econômico mais eficiente.
A metodologia utilizada pelo Observatório do Custo Brasil compara diferentes condições enfrentadas pelas empresas brasileiras com a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).[1]
A ideia é identificar quanto a economia poderia economizar se apresentasse condições semelhantes às observadas, em cada área analisada, nesses países.
O conceito ganhou força no debate econômico brasileiro em 1995, quando a Confederação Nacional da Indústria (CNI) publicou um estudo sobre o tema e promoveu uma agenda de discussão com o Congresso Nacional.[2]
Desde então, a expressão passou a ser utilizada para tratar de problemas que vão muito além da tributação.
Por que o Custo Brasil afeta a vida de quem não tem uma empresa?
Imagine uma indústria que precisa transportar uma matéria-prima por uma rodovia em más condições.
O trajeto pode exigir mais tempo, aumentar o consumo de combustível e elevar os gastos com manutenção dos veículos. Se a empresa também enfrenta crédito caro, energia mais dispendiosa e uma estrutura burocrática complexa, produzir aquele mesmo produto se torna mais caro.
A empresa pode absorver parte desse aumento, reduzir sua margem de lucro ou repassá-lo, total ou parcialmente, ao preço final. O grau de repasse depende das condições de cada mercado, da concorrência e da capacidade de cada empresa de absorver custos.
Mas o impacto não termina no preço.
Custos elevados também podem tornar determinados investimentos menos atrativos. Uma empresa que poderia ampliar uma fábrica pode adiar o projeto. Um negócio que poderia contratar mais pessoas pode investir menos. Uma companhia brasileira pode encontrar mais dificuldade para competir com concorrentes estrangeiros.
Por isso, o Custo Brasil também é uma questão de produtividade, investimento, emprego e crescimento econômico.
O que forma o Custo Brasil?
Não existe uma única causa.
O Custo Brasil resulta da combinação de diferentes fatores que afetam o ciclo de vida de uma empresa — desde sua abertura até sua recuperação ou encerramento.
Entre eles estão:[1]
- burocracia e custos para abrir um negócio;
- dificuldade e custo do acesso ao crédito;
- qualificação da mão de obra, encargos e riscos trabalhistas;
- deficiência de infraestrutura e logística;
- custos de energia elétrica e gás natural;
- ambiente jurídico e regulatório;
- barreiras à integração com cadeias produtivas internacionais;
- complexidade tributária;
- qualidade e digitalização dos serviços públicos;
- capacidade de inovação;
- condições de concorrência e entrada de investimentos;
- dificuldades relacionadas à recuperação e ao encerramento de empresas.
Esses fatores não atuam isoladamente. Uma deficiência pode potencializar outra e aumentar o custo total de operação.
Como o Custo Brasil é calculado?
A metodologia utilizada para dimensionar o Custo Brasil avalia 12 eixos e 26 indicadores relacionados ao ciclo de vida das empresas.[1][3]
Os 12 eixos são:
Abrir um negócio — considera o custo e o tempo necessários para formalizar uma empresa.
Financiar o negócio — avalia fatores como custo do crédito e risco associado ao financiamento.
Empregar capital humano — considera aspectos como qualificação da força de trabalho, encargos e riscos trabalhistas.
Dispor da infraestrutura — inclui custos e qualidade da logística, mobilidade urbana e infraestrutura de telecomunicações.
Acessar insumos básicos — considera principalmente os custos de energia elétrica e gás natural.
Atuar em ambiente jurídico-regulatório eficaz — avalia aspectos relacionados à efetividade e à agilidade do sistema jurídico e à eficácia da regulação.
Integrar-se às cadeias produtivas globais — considera os custos associados às restrições e tarifas de comércio internacional.
Honrar tributos — inclui a complexidade tributária, a carga tributária sobre o setor e o resíduo tributário sobre exportações.
Acessar serviços públicos — considera a digitalização e a efetividade desses serviços.
Reinventar o negócio — avalia a capacidade de inovação.
Competir e ser desafiado de forma justa — considera fatores como interferência estatal e condições de entrada de investimentos.
Retomar ou encerrar o negócio — considera restrições e custos relacionados à recuperação e ao encerramento de empresas.[1]
Para cada indicador, a metodologia compara a situação brasileira com a média dos países da OCDE e estima o custo adicional associado à diferença.[1]
É importante entender, portanto, que R$ 1,7 trilhão não é uma soma de impostos, multas ou despesas que aparecem em uma única conta. É uma estimativa econômica do custo adicional associado às diferenças identificadas nos diversos componentes analisados.[3]
Quanto custa o Custo Brasil?
A estimativa mais conhecida aponta para R$ 1,7 trilhão por ano.[1][3]
O valor foi obtido em uma atualização do estudo original. A primeira medição, baseada em dados de 2018, estimou R$ 1,5 trilhão. A atualização utilizou dados de 2021 e chegou a R$ 1,7 trilhão, preservando fontes e métodos de cálculo para permitir a comparação entre as duas edições.[3]
O valor corresponde a aproximadamente 19,5% do PIB brasileiro na referência utilizada pelo estudo.[3]
Há uma ressalva importante: R$ 1,7 trilhão é uma estimativa baseada em dados de 2021, e não uma medição atualizada do custo em 2026. O número continua sendo a referência utilizada pelo Observatório do Custo Brasil, mas não deve ser interpretado como se representasse exatamente o custo econômico atual.[1][3]
Isso também significa que não existe uma conta de R$ 1,7 trilhão sendo efetivamente paga todos os anos pelo governo, pelas empresas ou pelos consumidores. O número representa uma estimativa do custo adicional de produzir e operar no Brasil em comparação com a referência média da OCDE.
É uma medida de diferença de eficiência econômica.
Onde estão alguns dos maiores custos?
Os dados do Observatório ajudam a mostrar como o problema aparece em situações concretas.
A infraestrutura representa um dos maiores componentes. Deficiências relacionadas à logística, mobilidade urbana e telecomunicações estão associadas a um custo adicional estimado entre R$ 250 bilhões e R$ 290 bilhões, dependendo da composição apresentada pelo Observatório; a entidade destaca R$ 284 bilhões como estimativa do custo adicional associado à infraestrutura para o setor produtivo.[1]
O gás natural é outro exemplo. Em 2023, o preço médio do gás natural no Brasil foi estimado pelo Observatório em US$ 20,95 por MMBtu, enquanto a média da OCDE foi de US$ 12,56. A metodologia calculou um custo de aproximadamente R$ 20,42 bilhões, em valores corrigidos, associado à diferença de preços naquele ano.[4] O Observatório apresenta esse valor, arredondado, como R$ 21 bilhões de custo adicional para a indústria.[1]
A energia elétrica também ilustra como diferentes estruturas de mercado podem produzir diferenças relevantes de custo. Segundo a CNI, famílias e comerciantes pagam valores que chegam a ser 102% superiores aos praticados no mercado livre de energia, em uma comparação apresentada pela entidade.[5]
Esses números não devem ser somados diretamente para chegar aos R$ 1,7 trilhão. Eles correspondem a componentes ou estimativas específicas dentro da metodologia do Custo Brasil.
O Custo Brasil pode aumentar ou diminuir?
Sim.
O Custo Brasil não é uma característica fixa da economia brasileira. Mudanças em infraestrutura, legislação, tributação, regulação, tecnologia e ambiente de negócios podem aumentar ou reduzir os custos associados a cada eixo.
Um exemplo recente mostra como essas mudanças podem ser mensuradas.
Em 2026, a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) divulgou um indicador que analisou 45 atos normativos aprovados entre 2023 e 2025.[6]
Segundo o estudo, esses atos produziram R$ 290,7 bilhões em efeitos que aumentaram o Custo Brasil, enquanto os efeitos positivos representaram R$ 143,7 bilhões em redução de custos. O resultado líquido foi um aumento estimado de R$ 146,9 bilhões por ano no custo de produzir, empregar e investir no país.[6]
O dado não significa que cada uma dessas normas tenha simplesmente criado uma nova despesa de R$ 146,9 bilhões. Trata-se do resultado líquido de uma avaliação dos efeitos econômicos estimados das normas analisadas.
Esse tipo de medição mostra por que o debate sobre o Custo Brasil não se limita à quantidade de leis ou impostos existentes. A forma como uma regra altera o ambiente econômico também pode gerar custos ou economias.
Reduzir o Custo Brasil significa baixar os preços?
Não necessariamente, pelo menos não de forma automática.
Uma economia mais eficiente cria condições para reduzir desperdícios, aumentar a produtividade e tornar investimentos mais atrativos. Isso pode contribuir para preços mais competitivos, mas o efeito final depende de diversos fatores.
Se uma estrada é melhorada, por exemplo, o transporte pode ficar mais barato e previsível. Se o crédito se torna menos caro, um investimento pode se tornar viável. Se a burocracia diminui, uma empresa pode gastar menos tempo e recursos com atividades administrativas.
Em conjunto, essas melhorias podem aumentar a produtividade e a capacidade de competição das empresas.
O benefício, portanto, não precisa aparecer apenas como uma redução imediata de preços. Ele também pode se manifestar em mais investimentos, novos negócios, empregos, produtividade, inovação e crescimento econômico.
Por que esse assunto importa?
O Custo Brasil ajuda a explicar uma questão que costuma aparecer de forma fragmentada no cotidiano: por que é tão difícil transformar recursos em produtos, serviços, investimentos e oportunidades de maneira eficiente no país?
Uma empresa não enfrenta apenas o custo de fabricar seu produto. Ela precisa financiar suas operações, contratar pessoas, pagar impostos, comprar energia, transportar mercadorias, cumprir regras, utilizar infraestrutura e lidar com o sistema jurídico.
Quando cada etapa é um pouco mais cara ou mais lenta do que poderia ser, o efeito acumulado se torna significativo.
É por isso que discutir o Custo Brasil não significa discutir apenas o que uma empresa paga. Significa discutir quanto a economia brasileira perde em eficiência e quanto isso limita sua capacidade de crescer.
No fim, a conta pode aparecer de várias maneiras: em produtos mais caros, investimentos que não saem do papel, empresas menos competitivas, menor produtividade ou oportunidades que deixam de existir.
O Custo Brasil, portanto, não está em uma única conta.
Ele está na soma dos obstáculos que fazem o país gastar mais para produzir aquilo que poderia produzir de forma mais eficiente.
Fontes e referências
[1] Observatório do Custo Brasil. Custo Brasil.
[2] Confederação Nacional da Indústria (CNI). Custo Brasil 1995. 1995.
[3] Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Como foi feita a estimativa do Custo Brasil. 2023.
[4] Observatório do Custo Brasil. Abertura do mercado de gás natural. 2024.
[5] Confederação Nacional da Indústria (CNI). Custo Brasil.
[6] Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Indicador de Impacto Normativo no Custo Brasil (IIN-CB). 2026.